Porto Alegre, 11 de Setembro de 2014.
Estou andando com um rumo incerto. Não sei se devo conversar com alguém, não sei se devo dizer alguma coisa sobre o que estou sentindo. A questão é: estou sentindo. Estou escondida no quarto, agora. Prometi á todos que iria dormir, mas resolvi somente me largar. Largar meu eu numa cama macia e quente, de forma que eu pudesse ficar ali e pensar em mil e uma coisas sem ter que cobrar absolutamente nada. Estou me sentindo presa em um lugar que eu vim justamente para me sentir livre de qualquer coisa. A própria felicidade virou obrigação e me sinto perdida. Como se todos os dias eu devesse acordar e ter que ser feliz, obrigatoriamente. Até Rebecca, que sempre acorda bem humorada e rindo de tudo, tem sido bastante impaciente ao dirigir nessas ruas barulhentas e entediantes.
Tenho me culpado todos os dias por não ter cumprido promessas que fiz á mim mesma. Que tipo de diário é você que não se mantém atualizado sozinho? Queria ter tempo pra escrever o que bem entender. Tempo eu até tenho... Que grande confusão está minha vida! Vim pra cá para me organizar, e só acabei jogando tudo pro ar e deixei o vento levar. O problema é que o vento trouxe de volta e eu não sei o que fazer com todo esse entulho que um dia eu chamei de sentimentos. Tentei jogar no lixo mais próximo, mas depois lembrei que não é reciclável. Tentei depositar na pessoas mais previsível que poderia... Mas, quando eu estou assim, sou incapaz de amar até meu prato culinário favorito. Estou um verdadeiro caos.
Eu tinha uma psicologa no meu colégio, em torno do sétimo-oitavo ano, e ela adorava falar sobre essas fases da vida. Eu sempre fui uma criança-pré adolescente muito, muito problemática. Eu era aquilo que adoram chamar de "aborrescente". Nada me satisfazia e tudo me deprimia fácil, fácil. Eu sempre conversava com essa psicóloga,, e se hoje eu sou uma pessoa um pouco mais normal, devo tudo isso á ela. Ela falava que cada fase tem sua essência, e só saímos de cada uma quando aprendemos algo de muito importante nela. E na nossa última conversa, ela disse: menina Clarice, entenda... Pode ser que você encontre-se numa fase que não terá um aprendizado final. Você nunca aprenderá o suficiente dela e este será seu fim. Isto está longe de acontecer, eu lhe garanto. Todas as fases serão difíceis, cada qual com seu caos. Mas você, na sua maior plenitude da felicidade e mocidade bela, completará uma por uma com muito êxito. Não fora exatamente nessas palavras, mas é o que eu me lembro. Até hoje eu não sei o quanto esse "está longe" pode medir, mas algo me diz que ele já chegou. Mas uma coisa ela não disse... Talvez essa fase seja eterna enquanto viva eu for. Talvez essa fase demore tanto pra acabar que eu vou me cansar de esperar. Espero que assim seja.
Agora eu tenho que dormir. Você não tem sido um bom diário para merecer tantas horas de minha atenção. Pretendo ir embora daqui, é fato. E, apesar de toda a irritação, obrigada, meu diário, por permanecer aqui, mesmo com toda essa chatice, criancice, bobice, maluquice, idiotice e dramatismo que sou. Até breve.
- CM.

N/A: Amo quando, de uma hora pra outra, resolvo desencalhar certos personagens. Trouxe Clarice só pra dizer que a vida nem sempre será um mar de rosas e aproveitei pra pôr nela essa história de fases (pensei nisso em uma das minhas aulas de teatro e tinha que implantar em algum texto). Queria ter mais inspiração pra postar mais diários dela. Queria, até, ter um dia fixo pra postar diários dela... Não sei. Pensarei no caso. xoxo,


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