Queria ter talento para te escrever uma ode - uma que declarasse a ti o meu amor inteiro. Mesmo assim, com todo o talento do mundo, eu ainda não poderia escrever tudo. Não nos cabe em gênero textual algum. Não nos cabe nesse universo imenso que é só nosso, mas nós o aumentamos e moldamos aos nossos padrões. Cabe-nos no beijo da chegada, que parece antes anos e anos sem ver você. Cabe-nos no abraço de quando você vai embora e eu me pego pedindo aos céus que seja breve o nosso próximo encontro. 
Eu cantaria a ode todos os dias se ela eu conseguisse fazer. Eu te amaria em versos líricos para você me sorrir e os seus olhos ficarem ainda menores do que já são. Você me pegaria a mão e a beijaria, como sempre faz transbordando as gentilezas que compreendem-se em ti. A ode seria escrita por mim, mas seria tão sua que eu perderia a autoria. Falaria sobre você, sobre a forma que você me veio quando eu não achei que fosse; a forma que você ficou quando eu quase caí - coisa essa que você nunca deixou; a forma como você colore todo o meu mundo preto e branco, escuro, embaçado. 
O que eu escreveria teria o teu cheiro. Aquele cheiro que não vem de nenhum perfume importado, mas um que é tão seu e tão meu quando gruda em mim. Eu escreveria com tudo o que eu pudesse usar - que repito: seria tão pouco -, sobre todas as vezes em que eu quis correr para os seus braços e me perder ali dentro, pois dentre tantos lugares pequenos, nele me cabe. Nele me cabe e me sobra. 
Talvez eu recorresse a outros tipos textuais, na tentativa falha de concluir meus planos. Mas eu já falei sobre o tamanho do teu coração? Tem algo de não-humano nele, como tem algo de meu que eu mesma nomeei e me apossei e você mesmo me entregou. E desde então, eu só soube cuidar desse amor todo como alguém materialista cuida da pedra preciosa que mais tem; mas eu não me limito ao material. Vou até ao irreal para amar você, de maneiras que eu demorei para perceber que conseguiria, mas eis me aqui. Eis que você me ensina dia após dia o que é ser eu de novo, mesmo que o nosso poema não tenha rimas perfeitas ou que até na elegia você consiga achar uma ponta de felicidade no mundo. Nas minhas epopeias, você sempre será o principal.
Em uma ode, ou em qualquer outro tipo, não cabem nossas palavras que às vezes nem conseguimos dizer, no silêncio que somente nós conseguimos decodificar. E elas significam muito mais do que aquelas que já foram ditas.



A primeira temporada saiu sexta-feira (5) e eu ouvi muito sobre logo de imediato. Na verdade, ouvi ainda antes, quando o trailer saiu. E eu preciso dizer que a premissa da história, o que o trailer nos apresenta, é muito, mas muito pouco sobre o que a série realmente é. 

The End of the F***ing World

Sinopse:

"James tem 17 anos e acha que é um psicopata. Ele acredita não sentir emoções e quer cometer seu primeiro assassinato. Ao conhecer a problemática Alyssa, ele vê nela a vítima perfeita. Os dois caem na estrada e o fato de James se apaixonar por Alyssa atrapalha seu plano de cometer o primeiro crime."
Assisti ao trailer, resolvi dar uma chance. Foi satisfatório ver o primeiro episódio passar em menos de 20 minutos. E quando vi que eram 8 episódios, percebi que seria muito bom e fácil gastar algumas duas horinhas nessa maratona, mesmo sem saber muito o que me prometia. 
Contudo, não foi difícil me envolver com os personagens. Devido aos episódios serem ligeiros, a forma como acontecem tão rapidamente, nos fazem aprofundar nos personagens. James pensa ser um psicopata. E pensa que não consegue sentir nada. Alguns acontecimentos anteriores não permitem que ele se deixe sentir. E uma série de coisas acontecem tentando nos convencer de que ele realmente é psicopata. Ele nunca havia matado uma pessoa, até que essa "vontade" o aconteceu e Alyssa pareceu ser o alvo perfeito. De princípio, a garota aparenta ser detestável. E eu abro aqui um espaço para dizer o quanto eu odiei a presença dela nos primeiros episódios - sem falar que todos os problemas que acontecem são culpa dela. Ela é irritante com todas as pessoas, fala palavrão como quem diz "bom dia" e sem nenhum esforço me fez acreditar, lá pelo meio da temporada, que eu não ia gostar de fato de nenhum personagem.


Os outros são trazidos de forma temporária, insignificantes até certo ponto. Mas um cenário diverso é visto entre as relações. Temos duas policiais homossexuais, a mãe de Alyssa vive um relacionamento abusivo, no meio do caminho eles se deparam com assediadores... O que faz não parecer que os episódios têm apenas 20 minutos.
A aventura começa quando Alyssa, farta da vida que tinha em casa, decide fugir e encontra em James o parceiro perfeito. A partir disso, eles começam a fazer uma série de besteiras, bobagens muito surreais mesmo. Ela só queria dar um basta na vida que tinha; ele, procura ocasiões perfeitas para o seu primeiro crime em uma pessoa. E por mais que eu soubesse que aquilo ali se encaminhava para um desfecho péssimo para os protagonistas, eu me peguei diversas vezes torcendo por eles, ansiosa para saber se eles ficariam bem. Porque a grande questão disso tudo é que se pôde perceber e conhecer outras pessoas dentro deles mesmos. Eles próprios se descobriram.

"Nunca fui o protetor da Alyssa. Ela era minha protetora."

A série é repleta de humor obscuro. Dentre os comentários que vi anteriormente, a grande queixa relacionou-se com a romantização da psicopatia, comparando-se à série 13 Reasons Why, que é unânime se dizer que esta romantizou o suicídio. Na opinião de leiga que posso proferir em meu nome, prefiro dizer que não. Não há uma romantização porque a série não se trata da afirmação de que James é um psicopata e que isso pode desencadear surtos do tipo. Ela se trata exatamente da negação, da forma como ele descobriu o "sentir" e isso, sim, graças à inconsequente Alyssa. 
Algo que é bastante simples de perceber é a evolução dos personagens - não que necessariamente todos concordem que seja positiva -, em que ambos começaram de um jeito e mais próximos do final, vimos quase que personagens diferentes. A série assume novos cenários, novos objetivos, o que me fez pensar, ao chegar ao fim, além de que o diretor/produtor/whatever foi trocado no meio da temporada, que a temática inovadora no que tange ao James se enquadrar como um psicopata não é bem tão importante. Na verdade, é uma das coisas menos relevantes. Acredito que o trailer e a atmosfera construída para divulgar a série não fez o seu trabalho direitinho.


Para as considerações finais, tomei nota de que muitos acontecimentos são bastantes previsíveis, não se esforçam para fugir do clichê de forma alguma; a trilha sonora é boa, foi uma das coisas de que eu mais gostei; durante as cenas, a "consciência" dos protagonistas comentam os acontecimentos como se eles estivessem assistindo conosco, o que eu também gostei bastante e o que nos propõe que aquilo é um reflexo da cabeça adolescente: as atitudes inconsequentes, a vontade de fugir, a incompreensão para com os pais (apesar de que alguns não são exatamente bons exemplos). Eu também gosto do casal esquisito e surreal que foi formado. A rapidez com que tudo acontece e o fato de ter seus aspectos cômicos me dizem que não foram duas horas perdidas. Eu com certeza esperava outro final e eu realmente quis cancelar minha conta da Netflix no mesmo instante em que a tela ficou preta. Mal posso esperar para saber se haverá uma segunda temporada e, assim, ver qual será a sua continuação.


            

O alarme tocou. Cinco e meia da manhã. Fechei os olhos novamente. Tocou de novo. Cinco e quarenta. Decido levantar. Botos os pés no chão frio com preguiça de procurar um chinelo. As mãos levantam para o ar, em uma falsa maneira de tentar despertar. Tomei banho de olhos fechados, escovei os dentes sem mal abrir a boca, tomei leite, pois era mais rápido, vesti a camisa errada. Escondi o celular no fundo da mochila, me empurrei no meio das pessoas dentro do ônibus e encontrei um lugar para escorar e tentar dormir por alguns minutos. Era engraçado como muitos estavam de olhos fechados e boca aberta, com fones de ouvidos, inchados e poucos conversavam. Alguns estavam até no celular, digitando palavras doce e engraçadas, como se a vida estivesse linda e você não tivesse que ir para o trabalho chato ou a escola chata.
Demorou 40 minutos até que eu chegasse ao meu destino. Sentei na minha mesa, em frente a um computador que nunca poderia pagar, mexendo em planilhas de empresas que eu nem sabia para o que servia. As pessoas riam e falavam sobre a amante do Seu Carlos, nosso patrão, pois pelo menos na vida dele acontecia alguma coisa. A moça da frente flertava comigo, oferecia café e "bom dias" recheados de alegria, e eu, bem, sorria por pura conveniência. Não fazia sentido nenhum, ela só queria um corpo para esquentar sua cama e tentar esquecer do namorado violento.
Saio às 6 horas e de novo tenho que me espremer em um ônibus, procurando um canto para me apoiar e dormir. As pessoas estão com os olhos fechados e de boca aberta, alguns ouvindo música, outros atualizando incessantemente seus próprios celulares, rindo de pessoas que nunca tinham visto na vida ou achando comum mais 20 pessoas terem sido mortas em um ataque.
Chego em casa, tiro toda a roupa, tomo um banho, como, escovo os dentes, e sento ao lado da minha mãe no sofá, pegando em sua mão. Assim, contamos sobre o nosso dia, enquanto a novela passa na TV, fingimos que grandes coisas aconteceram no nosso dia, além de ter derramado café na blusa do colega do trabalho, e que estamos felizes e realizados com tudo que temos. Mas o que temos não faz sentindo, é puramente automático e ninguém liga para isso.

                     

                                                          


                          Resultado de imagem para simplesmente o paraíso

                                                           Simplesmente o Paraíso 

                                                              Autora: Julia Quinn
                                                                Editora: Arqueiro
                                                                    Páginas: 272
                                                       Título Original: Just Like Haven


"Odiava ser o centro das atenções, mas, por Deus, desejava ser o centro da atenção de Honoria" 


Simplesmente o Paraíso é o primeiro livro da série "Quarteto Smythe-Smith" que é um grupo musical da família Smythe-Smith formado por 4 primas que se apresentam todos os anos em um concerto. Fomos apresentados a este quarteto na série "Os Bridgertons" e lá conhecemos a sua fama, ou melhor, má fama, pois as jovens solteiras do quarteto tocam horrivelmente.
Nesse primeiro livro, a autora narra sobre Honoria Smythe-Smith e Marcus Holroyd, um casal de amigos que se conhecem desde a infância, quando Marcus passava suas férias na casa de Winstead, com o irmão de Honoria, Daniel.
Porém os anos se passaram, e Daniel teve que se exilar, após uma discussão que teve com Hugh Pretice e um duelo mal resolvido, porém, antes de embarcar para longe da Inglaterra, o jovem conde, pede a seu melhor amigo que cuide de lady Honoria. E assim ele o faz, sempre a espreita nos bailes da temporada e afugentando todos os candidatos não aceitáveis.

                   "Havia algo de maravilhoso em conhecer tão bem outra pessoa."

Porém, como de praxe, tudo volta a mudar quando reencontra Honoria em uma movimentada rua da cidade, no meio de uma chuva. Eles conversam e só voltam a se encontrar quando Honoria está no meio do campo, em uma viagem com suas primas para tentar agarrar algum pretendente "universitário". E um acidente acaba ocorrendo com Marcus, quando torce o tornozelo em um buraco ao tentar ajudar Honoria que cairá neste mesmo buraco, que ela própria tinha feito. 
Depois de uma chuva torrencial, Marcus finalmente consegue voltar ao seu lar, com um cavalariço, mandado por lady Honoria, e se ver caído em uma forte doença.
Eu simplesmente amo a forma que a Julia Quinn narra as suas histórias, de uma leveza e firmeza impressionante, botando os fatos da época, mas traduzindo de uma forma que o leitor compreenda tudo. Isso ocorreu na série dos "Bridgertons" e volta a aparecer nesse primeiro volume do "Quarteto Smythe-Smith", trazendo uma história encantadora sobre estes dois amigos.
A forma que eles se apaixonam e percebem que estão amando é gradativa e bonita, quando se veem em um momento horroroso, onde Marcus não possui família e Honoria e sua mãe ficam ao seu lado, tratando do seu ferimento e cuidando para que este se tornasse saudável.
Acredito que se trata muito daquilo de "nos melhores e nos piores momentos", pois nessa loucura de quase morte, eles percebem que realmente estão apaixonados.
Mas voltando para a parte onde ele fica doente, é um ponto alto da história, principalmente como a autora consegue transmitir o tratamento de uma ferida, com tamanho realismo, naquela época e até o uso de drogas.
A história de ambos segue de uma maneira linear, com altos e baixos, claro, para dar aquela apimentada e uma dor no coração do leitor. Mas no final. tudo se resolve em um momento lindo, e temos até a volta de um personagem super interessante, além da aparição de Gregory Bridgerton e Colin Bridgerton, naquele fã service que todo mundo adora.
Simplesmente o Paraíso é um livro maravilhoso, com uma narrativa rápida e intrigante, te prendendo da primeira página a última. Cada vez me admiro mais com a inteligência da Julia Quinn e ela está me tornando uma viciada em romances históricos.


"Ela amava ensaiar com as primas, mesmo se, com o tempo, houvesse passado a tampar os ouvidos com chumaço de algodão."



           


Nota: Esse foi o meu último livro de 2017, e já comecei o segundo volume dessa série e espero em breve trazer uma resenha de " Uma noite como esta" que já está me fazendo perder o sono. Espero que tenham gostado.



                                                            






                


Existia uma fita amarrada ao meu pescoço e a cada vez que eu tropeçava, com palavras ou atitudes, ela me apertava mais.
O soluço constante me fazia sufocar, contraindo a garganta de mil formas em uma falha tentativa de respirar. As pessoas passavam por mim e estava tudo "ok", algumas apenas apertavam mais a fita, afrouxavam ou acrescentavam mais uma em volta do meu pescoço. Então eu sorria, como se nada estivesse acontecendo, como se dentro de mim a felicidade habitasse. Mas eu estava perdida, sufocada em pensamentos e em uma vida que não me pertencia, sendo guiada pelo desejo alheio e nunca sendo perguntada sobre o que eu queria de verdade. Sobre o que eu quero para minha vida, o que considero felicidade. Mas eu não via forma de sair, pois a cada passo dado em outra direção a fita se acochava mais.
Me segurando em uma vida cheia de feridas, onde band-ainds não poderiam segurar tamanha dor. Era um coração quebrado, um corpo doente. Até que surtei, sai correndo por aí, às 4h30 da manhã, de pijama, descalça, sem saber para onde exatamente ir, apenas continuei a correr e correr, até cair em meus joelhos em uma rua loteada de casas, e perceber que fita não tinha me estrangulado, nem ninguém, pois quem a estava apertando esse tempo todo era eu. Naquele momento eu havia arrancando-a da minha vida.

Nota: Feliz Ano Novo, meus amores! Espero que tenham compreendido a mensagem do texto, e que assim como relatado a cima, vocês possam retirar qualquer amarra que estão o prendendo da felicidade. Beijos e tchau. 

                                                         
                                                          


Eu bebi saudade a semana inteira pra domingo você me dizer que não sabe o que quer e não quer mais saber.



Era uma festa na casa de uma amiga da faculdade e eu, uma das mais calouras, não podia dizer não - pelo menos era isso o que meu espírito de gentileza me dizia. Ela disse que eu não precisava levar nada, mas insisti em ajudar com algumas bebidas. Ao chegar e cumprimentar uma das minhas mais novas amigas, não demorou muito para que eu fosse apresentada às pessoas ali presentes, que não eram tantas, e com um sorriso no rosto, ela me foi apresentada. 
Nós conversamos a festa inteira e qualquer pessoa que passasse por nós duas, diria que éramos amigas de longa data. Mas não era exatamente isso que eu sentia. E foi muito mais do que isso nas festas seguintes, na mesma casa, todas as vezes em que nos encontrávamos. Entre uma festa e outra, mantivemos contato, quase o dia todo, mandando mensagens uma para outra e nos encontrando na faculdade durante os intervalos. Vez ou outra ela me soltava um "ah, Maria Júlia, por que você não apareceu antes?", ao que eu respondia "porque antes eu não era como sou agora, Alice". 
Com o passar do tempo, as festas aos sábados foram diminuindo; a anfitriã havia começado a namorar um rapaz e o foco dela agora era outro. Alice e eu, então, passamos nos encontrar aos domingos, quase sempre na nossa livraria favorita da cidade. Com 6 meses passados desde que fomos apresentadas, ela tomou a iniciativa de me beijar pela primeira vez. Foi uma das sensações mais estranhas que eu já senti na minha vida. E foi uma das melhores também. Eu já havia ficado com vários garotos, inclusive até namorado um por uns cinco meses, mas aquilo... Aquilo sim era um beijo de verdade, com sentimento de verdade e tudo o que se tem direito. Eu quase fiquei sem reação. Quase.
Fomos nos conhecendo melhor e os domingos foram se estendendo para sextas à noite na casa dela e às quintas, nós até íamos jantar em um restaurante de nossa preferência. Na casa dela, a sua mãe já sabia de nós duas e ela era "tudo bem" com isso. Na minha casa, por outro lado, na primeira vez em que eu tentei tocar no assunto - de maneira a comentar que uma colega minha havia se assumido lésbica para a faculdade toda -, fui presenteada com uma longa conversa (lê-se monólogo) conservadora por parte do meu pai, enquanto minha mãe só ouvia tudo em silêncio, "boa esposa" como era. Depois disso, ela veio conversar comigo e disse o que queria dizer. Foi então que eu tive coragem de contar tudo para ela. Contar que eu havia conhecido uma pessoa incrível, diferente de todas as outras do mundo, que ela era realmente e definitivamente especial, sem falar na sintonia que tínhamos e em toda aquela cumplicidade que eu só havia sentido com ela. E que ela era uma garota.
A minha mãe teve uma reação de surpresa. Por um tempo ela não conseguia falar direito comigo. Algumas semanas depois, ela até me perguntava sobre Alice, como ela era e quando ela iria conhecê-la. Aquilo me fez ficar ainda mais louca. Em certos dias, principalmente quando meu pai viajava a trabalho ou dizia que chegaria mais tarde, eu convidava Alice para ir até a minha casa e em uma dessas ocasiões, eu a apresentei a minha mãe. Foram muitos elogios, por parte das duas. Eu não podia estar mais feliz.
Eu e ela nos comunicávamos através do olhar. Tudo o que eu sentia todas as vezes em que eu a abraçava, a beijava e a amava me fazia pensar que eu só queria fazê-la ainda mais feliz. Eu a pedi em namoro quando ela disse pela primeira vez que me amava. E eu realmente acreditei que isso poderia ser para sempre, que eu havia tirado a sorte grande de encontrar o meu bilhete premiado assim, de cara. Ela havia me ensinado a conhecer a mim mesma, a me amar, a definir quem eu sou e quem eu gostaria de ser. Ela me fez ter fé na vida e nas pessoas. Ter fé no amor. Somente ela tinha aquele olhar pro mundo que me fazia entender tudo. Até que aquilo aconteceu.
Foi ficando mais difícil para nos ver, quando eu estava livre ela tinha algum trabalho importante da faculdade; quando ela estava livre, eu tinha um bilhão de provas para estudar, sem falar no estágio que eu havia começado a pouco tempo. Ocorreu um final de semana em que minha mãe havia ficado doente e eu tinha marcado para ver Alice, mas tive que desmarcar. Com meu pai viajando, eu fiquei para cuidar do que fosse preciso e pedi para que a minha namorada fosse ficar um tempo comigo, quem sabe até me ajudar, e depois nós podíamos matar um tempinho vendo algum filme ou algo parecido. Ela me disse que estava muito cansada e que ficaria em casa.
Na mesma noite, eu vi uma foto dela na rede social de um amigo em comum. Ela estava em uma festa, com vários conhecidos, abraçada com outra garota. Foi o suficiente para que tivéssemos a maior briga de todas. Fui até a casa dela no dia seguinte e ela mal me olhou nos olhos. Disse que precisava de um tempo para si mesma - como se todos aqueles dias em que estávamos distantes uma da outra já não fosse espaço o bastante. Eu compreendi e me afastei. Fui embora dali arrasada.
Os dias foram se passando e eu fui tentando seguir a minha vida. Era inevitável chorar em uma noite ou outra de saudade, sem ter resposta alguma para aquele tempo que ela havia me pedido. Nós nos víamos na faculdade às vezes e ela até sorria quando conversávamos nossas banalidades de sempre.  Só não era o mesmo sorriso. Já não era mais a minha Alice, a garota perfeita por quem eu havia me apaixonado cegamente.
Cerca de três semanas depois, ela me ligou dizendo que queria conversar. Era um domingo quando eu fui até a nossa livraria, o nosso lugar favorito, e ela disse com a voz mais fria possível que já não queria mais nada comigo. "Você ainda é infantil demais e eu meio que já estou em outra", foram as palavras dela. O meu coração ficou do avesso e se desfez. Foi pisoteado e massacrado por ela, naquele instante, e eu saí do local devastada demais para contestar no mínimo se a "outra" era a garota da foto. Eu que não quis mais saber.
Ela havia me feito acreditar que o amor era algo forte e grandioso, que seria capaz de suportar qualquer coisa para sobreviver. Isso nunca foi uma mentira, o que significa que ela nunca me amou de verdade. E foi tudo tão de repente, que somente agora eu consigo parar de fato e perceber que ela foi só o que eu precisei para eu descobrir o que eu verdadeiramente sou. Que o brilho no olhar que ela tinha eu não encontraria em mais ninguém, mas outras pessoas tinham os seus próprios e que podiam ser ainda mais luminosos. Os motivos para os meus sorrisos foram atribuídos a outras coisas e a outras pessoas. Aos domingos, quando passo em frente à livraria, ainda lembro dela, das risadas e dos beijos. Mas às segundas, ela se torna apenas uma boa memória que um dia me fez bem. Hoje, depois de seis meses que tudo acabou, eu posso dizer com certeza que eu jamais esquecerei Alice, não por amá-la mais do que qualquer coisa ou por ela ter sido a minha primeira paixão; mas por ela ter contribuído para que eu pudesse ser a Maria Júlia que eu sou hoje, forte como tantas outras Marias, mas única em cada pedacinho meu.

N/A: Desde já eu peço perdão pelo texto mais longo que o normal, mas tenho escrito bastantes textos em uma espécie de "coletânea" e resolvi trazê-los ao blog com este seguimento, "As Marias". Será uma série de mulheres diferentes, autênticas, singulares e ao mesmo tempo muito parecidas com tantas que vemos e convivemos no dia-a-dia. Nem sempre serão histórias de amor (ou não-amor) como essa, mas todas com o foco principal: ser mulher

via: Pinterest


Como podemos dizer que ninguém é perfeito se não há perfeito a ser comparado? 


Se tem uma coisa na minha vida pela qual eu sou condicionada a uma luta constante é pela autoestima. Sempre foi muito ruim, destruída por mim mesma e por outras pessoas, me fazendo nunca me sentir querida por mim mesma e consequentemente por ninguém. Isso muda um pouco quando você começa a se apaixonar, pelo menos comigo foi assim. Passei a me olhar no espelho e até me sentir um pouco mais legal, ou até mesmo gostar do que via, coisa que nunca tinha acontecido. Mas ainda assim existe um problema enorme a ser combatido daí em diante.
Olhei-me no espelho hoje cedo e percebi mudanças em mim que há anos eu não parava para perceber. Ou talvez eu simplesmente não procurasse. Algumas coisas estão do jeito que eu imaginei que estariam quando os anos se passassem, outras eu não fazia nem ideia. O meu rosto tem todas as imperfeições de todos os anos e as mesmas marcas que eu mesma criei. E eu não estou falando somente do que eu vejo literalmente no espelho.
A minha cabeça mudou tanto, logo eu que antes quis tanto mudar. Agora eu acho esquisito passar por todas essas mudanças. Acredito que seja porque cheguei a um ponto que não quero mais que as pessoas se mudem de mim, o que antes eu já quis e muito. Hoje eu quero que elas fiquem. E quero que elas me ajudem a mudar, a melhorar e coisas assim. Afinal, é isso, não é? É nisso que a vida se condiciona. Mudar para melhor. Fazer algo de importante para mudar o mundo etc. Às vezes eu só queria parar um segundo. Queria que essa coisa de ter que colocar um sentido em tudo fosse acabando aos poucos. Essa busca por algum ideal e uma vida realmente boa, que faça história... Isso cansa.
A perfeição nos cansa. A busca por ela é cansativa, não? Olho no espelho e encontro imperfeições. E penso o quanto elas me formaram e, querendo ou não, me fizeram ser totalmente diferente. Ao final de tudo, o mais relevante que ficou foi a importância de ser imperfeito. A necessidade de ter falhas, de ter problemas, de ter uma série de defeitos. A necessidade de mudar também, quando algo não for bom para nós mesmos ou simplesmente quando quisermos. A força de saber que você não precisa ser melhor e maior do que ninguém, você não precisa se auto-superar sempre. Você só precisa ser bom, seja para os seus pais, o seu namorado, a sua vizinha ou até mesmo para o porteiro, mas principalmente para você mesmo.
E você pode se olhar no espelho e usá-lo ao seu favor. Observar seu rosto, gostar dos seus olhos e do seu sorriso. Se você não gosta de sorrir, pergunte-se o porquê. Se a resposta ainda for negativa, procure outra coisa para achar bonito em você. Precisamos querer gostar de nós mesmos. E precisamos buscar que nossas inseguranças sejam um combustível para sermos melhores. Sempre para nós. E, assim, depois, para os outros.
Daqui uns 5 anos talvez essa luta tenha acabado. Caso contrário, na possibilidade mais possível - que ela nunca venha a acabar -, eu espero que ainda tenha muita força para isso. Eu preciso de algo que dê credibilidade às coisas que eu escrevo e recito, não é?


É dia 25. 
Eu percebo que não mudei muito quando me pego chorando de novo em todos os finais de ano, não porque percebi que mais uma vez comi demais e estou passando mal novamente, mas é inegável a minha emoção ao fazer uma retrospectiva do ano mentalmente, juntando todos os meus aprendizados, descobertas, sentimentos e pessoas novas que eu adicionei, às quais eu fui adicionada e as pessoas que eu reencontrei. Eu queria poder pegar uma palavra ou duas para falar de tudo. Mas 2017, meu amigo... 
O ano que eu mais pedi para acabar e o que eu mais tive medo que passasse, pelo próximo ano que vem aí. O ano que eu mais me conheci, me reaprendi, me superei,... O ano em que eu mais procurei sumir. Venho vivendo em um looping infinito em que todo fim de ano me traz aquela angústia do novo que está por vir, um alívio pelo que passou e aquela gratidão que me preenche, o sentimento de dever cumprido. 
Hoje é dia 25 e eu espero que, para quem a data tem significado, tenha sido um dia para estar com a família, para abraçá-los e refletir sobre todas as coisas boas que aconteceram nos últimos meses. E para quem não vê significância, que também tenha sido um dia bom para ficar com quem se ama, para amá-los mais e para ser grato pela vida.
Eu decidi que, a partir deste ano, eu amarei o Natal. Será uma época linda, feliz e com muito mais amor do que tenho o ano inteiro. Isso pode ser chamado de resoluções de ano novo, não pode? E decidi também que este texto será apenas uma forma de não deixar a data passar batido (é mais válido o que está acontecendo lá fora: minha família reunida, comendo, rindo e cantando músicas que realmente não são natalinas, mas tudo bem. Estão felizes demais para se importarem com isso).
Feliz Natal para todos nós e que muitos outros dias 25 estejam por vir.





                                 

Peço perdão a ti, ó Pai
Pois o teu filho mataste o irmão
O sangue escorre das mãos
Manchando toda a tua terra

As crianças permanecem chorando
O leite falta do peito da mãe
A terra permanece seca
Os pés rachados pisam sobre o chão segurando um corpo esquelético

Ô pai, peço perdão a ti
Pois o sorriu morreu
Gritos o substituíram

Armas apontadas para todos
Somos alvos agora?


No café da manhã
Mais um tiroteio, 
No almoço, 
Mais um corpo estendido, 
No jantar, 
Já não existe liberdade

Peço perdão a ti, ó Pai 
O sangue está em minhas mãos 

Álcool em volta de mim, 
Álcool em volta de ti, 
Tudo queima, 
Como se estivéssemos em Sodoma e Gomorra 

Mataste a pureza? 
Nos mataste? 

O ódio assombra as travessas 
Um fuzil descansando no ombro
O sangue derramando para se formar um rio

Peço perdão a ti, ó Pai
Pois não sei mais como seguir


                                                                        

 


Eu vou cantar pra ela que sem ela não existo mais. Eu vou cantar pra ela que eu sempre a quero mais. E eu vou dizer pra ela que ela é a luz que me traz paz.

Foi naquele aeroporto que eu tive a infelicidade de assistir ao amor da minha vida indo para outro país. Fosse outro estado ou até um país pertinho... Mas ela foi para outro continente, buscando o sonho dela. E eu? Fiquei em pedaços. Fui fraco. Fui orgulhoso. Não queria aceitar que quatro anos de relacionamento seriam afundados porque ela queria ir e não havia me encaixado completamente nesses planos. Na real, até tinha... Mas eu não tinha participado dessa decisão, e para a minha cabeça altamente egoísta e precipitada, aquilo era o bastante para saber que ela não era pra mim.
Eu não conseguia descrever o quanto eu estava inconformado. Eu nunca havia conhecido alguém daquele jeito, do jeito dela. E antes de conhecê-la, eu já sabia como eram várias meninas - e por nenhuma delas eu me entregaria como eu me entreguei pra ela. Mas eu só consegui pensar nisso direito depois, quando já havia perdido. Só conseguia pensar que não podia mais dizer o quanto os olhos dela são lindos e que eu faria tudo por nós dois.
A luz que ela me transmitia... Fazia com que eu fosse completo. Foi a primeira coisa que minha mãe disse quando a conheceu. E minha mãe disse que eu estava só o caco desde que ela foi embora. Disse que se eu não me recuperasse logo, os quatro anos terão sido em vão. Que eu tinha que ir atrás dela ou desistir de vez e seguir em frente. Mas, cara, olha pra mim. Agora me imagina com barba mal feita, acabado, caindo em uma tristeza profunda. Eu não conseguia vestir uma roupa sem lembrar que ela me ajudou a escolher. Ou de quando eu usei aquela blusa e nós trocamos anéis de compromisso. Éramos um compromisso, uma verdade, a certeza de uma vida. Mas eu me transformei em um idiota que não teve a coragem de largar tudo pra ir com ela. Seria a maior loucura que eu poderia ter feito por algum amor, muito embora ela seja muito mais do que apenas um amor. Ela é coisa demais pra mim. Até mais do que um dia eu pedi.
Eu permanecia olhando para as fotos dela na minha estante. Tinha o cheiro dela nas minhas roupas de cama e tinha algumas coisas que ela esqueceu em casa antes de ir embora que inevitavelmente me levavam até ela e me faziam ficar louco comigo mesmo por tê-la deixado ir embora. Nessas horas, eu sentia vontade de sair correndo e pegar o primeiro voo direto pra Alemanha, enchê-la de beijos, dizer que tudo seria resolvido depois. Só não conseguia ficar sem ela. É estupidez demais deixar alguém tão incrível ir embora assim.
Desde que ela se foi, os dias iam sendo de guerra aqui dentro e eu não sabia como pacificar tudo. Que mulher é essa que tem o poder de destruir um homem simplesmente por não estar mais ali? É o amor da sua vida, meu inconsciente respondeu. Não a deixe passar.
Foi complicado, demorado, um processo dolorido para saber que ela é do tipo de pessoa que você simplesmente não descarta, não deixa sumir, mesmo que por escolha dela. Você luta por esse amor, nem que seja em outro continente. Você se joga. 
Eu sabia que eu não conseguiria acalmar tudo. Mas sabia quem podia fazer isso. A única pessoa que eu queria ao meu lado.
Eu resolvi me jogar. 
Ela me recebeu com lágrimas.
Vê-la de novo foi como reacender todas as luzes que ela já havia acendido em mim, mas que haviam se apagado sem o combustível que ela era na minha vida.
Renasci no abraço da luz que me traz paz. E tenho renascido todos os dias desde então.