Foto: Acervo pessoal | Frase do rapper Emicida reproduzida no documentário "AmarElo" (Netflix).

Hoje, há quase um ano vivendo de perto esse caos que meses antes chegou por aqui na Terra, tive um daqueles baixos dentre tantos altos que persisto em viver apesar de tudo. Aqueles baixos em que o meu quarto, que geralmente é confortável e me abriga bem, começou a parecer pequeno - o teto mais baixo, as paredes mais estreitas, um calor inexplicável e a necessidade de sair daqui.

Não, não sair para qualquer lugar. Não obstante tanto tempo, ainda me reservo no direito de ser um pouco exigente. Eu queria ver gente. Queria ver gente andando, falando, rindo alto de uma maneira que não fosse por meio de uma tela. Queria não ser interrompida por uma conexão ruim. Queria não ter que encarar a frieza das mensagens por WhatsApp.

Sei que não é à toa que o momento roubou o nosso riso e tirou o brilho dos nossos olhos. São pessoas partindo todos os dias. Milhares delas. Todos os dias. E estamos, mais do que nunca, nas mãos de um maluco genocida. É demais querer que alguém esteja sorrindo nesse momento. 

Mas a saudade é inevitável. Uma saudade que não vem com data de validade, porque sequer imaginamos quando sairemos disso. Assim, vamos vivendo dia após dia, esperando o momento em que poderemos passar pela porta e reviver a liberdade. E me dirijo até mesmo àqueles que estão preferindo se expor e se colocar em risco, porque, cá entre nós, isso não é a verdadeira liberdade. Mesmo que em graus diferentes, essa onda caótica atinge a todos nós e me dói saber que alguns não se importam com isso. Desses, também sentirei certa saudade.

Digo isso porque, sim, essas pessoas já não podem estar mais aqui (nesse lugar que criei para proteger os meus). Sendo bem sincera, não sei até que ponto essa situação toda vai nos ensinar em termos de humanidade. Admiro quem consiga ser tão esperançoso assim. Mas é fato que me ensinou muito sobre quem eu quero comigo e sobre quem se mostrou egoísta, mesquinho e ignorante. Vou sentir saudade da ideia que eu tinha antes sobre essas pessoas.

A saudade de agora, como eu ia dizendo, não se direciona completamente a indivíduos específicos. Ela me fala sobre aquele tempo em que eu ia para a faculdade em um ônibus lotado, sozinha com o céu cheio de nuvens que é a minha cabeça com tanto pensamento atropelado. Saudade de tomar café com meus amigos na barraquinha que fica na esquina da faculdade. Saudade de encontrar minhas amigas da escola e recontar as mesmas histórias que lembramos sempre que estamos juntas - e rimos da mesma maneira. Saudade de fazer planos com data de realização, sabe? Coisas concretas. É isso. Tudo hoje parece que está flutuando na nossa frente. Uma onda de incertezas com a qual não sei lidar e me inunda todos os dias.

Tem uma frase dita pelo Emicida que me toca sempre que essa saudade me invade, sempre que penso como antes o abraço era fácil, sempre que me dói pensar em todas as vidas perdidas. "É no encontro que a nossa existência faz sentido". Como, então, encontrar sentido nesses tempos de tantos desencontros? 

Se o abraço falta, se o toque não é permitido, se existem tantas barreiras nos impedindo de viver - e tantas coisas nos ameaçando de perder a vida... Eu só espero que possamos continuar cuidando dos nossos, mesmo que aos trancos e barrancos. Lamentando a perda de muitos, torcendo para que não hajam tantas a mais. Estou morrendo de medo, sabe? Mas tentando lembrar da frase do Emicida para que, quando puder encontrar todo mundo, as coisas voltem a fazer sentido.



Sienna and Austin por Sophia (no Flickr)

Se apaixonar é uma coisa meio doida, né? A gente nunca espera, só aparece sob nossos olhos e invade nosso corpo sem pedir licença, nem um "por favor. Obrigada". Ela entra na casa, se senta no sofá e ainda encosta os pés na mesa de centro. Mal educada assim. 

Se apaixonar também é um sentimento meio dúbio, é bom e ruim, calmaria e estresse, tudo ao mesmo tempo. Nos faz reparar em coisas pequenas, daqueles que passariam como o vento anteriormente, mas que parecem como uma tempestade agora. Nos faz questionar as vírgulas, os pontos e até o texto inteiro. Nos transformar em um recorte de nós mesmos. Uma versão mostrando todas as nossas qualidades e deixando escapar os erros pelas arrestas. Mas se apaixonar é a parte fácil, é quando deixamos nosso coração desviar um pouco do caminho e se permitir ser flechado. O resto é o difícil, o pós euforia, quando aquela flechada não dói em nada e o sangue ainda está bem preso no peito. Para alguns essa flecha talvez possa nunca vir a ser retirada de fato, mas pra mim sim. Ela sempre foi arrancada de mim, meio que de surpresa, sangrando de um jeito que as minhas mãos não sabiam muito como estancar. Sim, eu não sou a melhor pessoa para falar sobre se apaixonar, vamos dizer que minhas experiências não foram lá essas coisas todas. 

Mas é claro que boas histórias saem disso tudo e que essa flechada dolorida pode ser ótima, quando o outro também é fisgado pelo danado do cúpido. Aí vem os sorrisos bobos, as coisas bregas, as tantas inseguranças que afligem qualquer coração e a felicidade miudinha, prendida nas pequenas coisas, desde um bilhete mal escrito à olhares longos e silenciosos, daqueles que a gente não precisa dizer nada, só está lá, se fazendo presente, mal educado assim. 

                                                                              



Hoje, faz cinco anos que eu decidi esquecer você. Não parece ser o tipo de coisa que se tem controle, embora eu quisesse acreditar que sim quando tomei essa decisão. Ainda mais depois de passar tanto tempo nutrindo aquele sentimento por você. Era tão incoerente alimentar algo que não me alimentava da mesma maneira... Se eu me arrependo? Bom, não. É, é a verdade. Depois desse tempo todo, finalmente percebi que não vai me doer admitir que talvez – e só talvez – eu não sinta raiva de todas aquelas declarações de amor. Nem mesmo vergonha.

Aquele momento foi um daqueles divisores de água. Eu posso delimitar a pessoa que eu era antes e depois do instante em que tomei minha decisão. E sem toda aquela baboseira de ser grata pela experiência vivida... Não. Estou falando de mim mesma.

Alguns anos atrás, eu falaria de você. Falaria das coisas que eu gostava em você, dos nossos assuntos preferidos, do que eu queria que fizéssemos no futuro. Falaria do porquê do meu pai aprovar nós dois, falaria sobre a minha mãe nos apoiar e até que a minha irmã adoraria te ter como cunhado, mesmo que eu não soubesse da veracidade de nenhuma dessas coisas. Isso porque eu gostava de sonhar com você. Gostava de imaginar que podia ser real de qualquer forma. Mas não era.

Foi só quando eu percebi – quando eu realmente percebi que você não era para mim, foi que eu virei a página. Sabe quando foi? Quando eu ouvi aquela música, aquela que eu chorava tantas vezes escutando e lembrando de você, e não senti nada. Te escrevi uma penca de cartas que você nunca vai receber. Chorei o que tinha que chorar. Contei para as minhas amigas que tinha te esquecido, para você ver como era um marco e tanto. Tinha uma parte de mim que chegou até a pensar que era só fingimento, que uma hora ou outra eu acabaria caindo por você de novo. Só que eu já não era a mesma pessoa um pouco depois disso.

Quando você me mandou aquela mensagem hoje cedo me desejando um feliz aniversário, passou tanta coisa pela minha cabeça. Fiquei o dia inteiro indo e voltando nas suas palavras. Antigamente, teria sido como abrir uma portinha para novas borboletas ainda mais vorazes atingirem todas as partes do meu estômago. Hoje, só me causou um riso. Um riso um tanto sarcástico, na verdade. Um riso de quem entende que já não é mais sobre você, embora um dia tenha sido.

A sua mensagem nesta data foi um lembrete da minha decisão. Está marcado que, neste dia, além de completar mais um ano de vida, é o dia em que decidi apagar você. Mesmo que você vez ou outra ainda tente voltar... Eu já não sou mais aquela pessoa. Eu não consigo nem fingir ser. Foi por isso que eu ri, porque ironicamente escolhi a data que me acompanhará pelo resto da vida para tomar a decisão de te esquecer. E mesmo que provavelmente eu lembre para sempre dessa escolha, nunca mais me sentirei da mesma maneira. Nunca mais sentirei o mesmo por você.

Eu tenho certo receio de escrever textos com conteúdos desse tipo porque eles não são reais. São baseados em experiências próprias, é verdade, mas estão muito distantes da realidade - hoje tampouco é meu aniversário. Só deixei que a minha imaginação fosse um pouco mais distante para realizar aquela vontadezinha de mostrar que estamos bem a quem um dia nos deixou na pior, mesmo sem intenção. Faz parte, o ser humano não é perfeito. | A imagem é uma foto minha com um trecho da música "te assusta" da Manu Gavassi. Acho que a música é mais sobre um relacionamento complicado, que está tentando se manter, mas eu assumi um outro sentido do trecho para ser coerente com o meu texto.
 


Via Pinterest

A casa silenciosa. Os raios de sol entrando de fininho por trás da cortina, invadindo o quarto pintado de branco, assim como meus olhos sonolentos e inchados de choro. Sentada sozinha no meio da cama grande, enrolada em dois lençóis, escutando apenas o barulho do primeiro noticiário, perguntava-me quando aquilo ia passar. Por que viver doía tanto? 
Os dias eram cinza, cercados por ambientes claustrofóbicos. O ônibus lotado das seis e meia da manhã; a sala pequena de iluminação amarelada que dividia com mais 3 pessoas no trabalho; as ruas cercadas de prédios altos que não permitiam a visualização perfeita do céu; o barulho constante de buzinas; a poluição que preenchia meus pulmões. Então voltava para casa, com as pernas doendo por causa do salto, comia alguma coisa processada e gelada enquanto assistia ao mesmo canal até dormir e começar tudo de novo no outro dia. Isso era viver de verdade? Dias iguais. Caminhos iguais. As mesmas pessoas.
Com esses questionamentos, arrastei os pés sobre o piso frio. Hoje poderia ser diferente. Depois do banho tomado, de deixar a água lavar as impurezas do corpo e da mente, decidi sair. Parei sentada na areia da praia, observando o azul do céu se confundir com o azul do mar. As ondas se formavam pela força dos ventos, nasciam como gente, cresciam cheias de força, querendo levar tudo, e se derramavam como se não houvesse nada para trás, perdendo a força até se encontrar sugada. Eu estava assim, sendo sugada pelo peso da existência, questionando os parâmetros e sendo jogada de um lado para o outro em uma sociedade automática. 
Afundei na água salgada, enxergando tudo azul, puxei o ar e senti o calor dos raios de sol no meu corpo, assim como o brilho que impossibilitava a visão. Aquilo era viver: sentir o calor na pele ao mesmo tempo que se sente flutuar, com o salgado ardendo nas feridas e o líquido beijando-as em perdão. Quando saí do mar, decidi que iria fazer diferente, mesmo que doesse mais do que já doía. Pelo menos queria sentir a vida novamente, como naquela manhã de domingo.

Nota: Acho que fazia um bom tempo que a gente não vinha com um texto e é sempre necessário esse momento de pausa pra botar alguma coisa pra fora. Esse texto diferente dos outros eu fiz obrigada pela faculdade, mas gostei muito dele e acho que alguém pode se identificar e perceber como viver é diferente para cada um, mas todos passamos por certas angústias e que a melhor coisa é se permitir viver e ser feliz do seu jeito.
                                                                                




Ontem foi um dia muito bom, muito bom mesmo. O meu sorriso era tão largo e constante que temia a cada passo que algo mudasse e aquilo passa-se. E eu pensava em você, pensava em como era puta importante eu conseguir ser feliz unicamente e simplesmente por mim. Mas eu queria enviar uma mensagem pra ti, quando já tivesse chegado tarde em casa e estivesse me preparando para tomar banho, dizendo um: “tô muito feliz, e você?” e que você se importasse com a minha felicidade, me parabenizasse e dissesse que a gente deveria se ver naquela semana. Mas não, não foi isso que aconteceu. Eu continuei feliz, claro, afinal tinha tirado a nota máxima em uma prova que eu precisava muito, fui dormir tranquila, conversei com uma das minhas melhores amigas sobre uma tatuagem que ela fez e continuei a ler Harry Potter de madrugada, com a lanterna do meu celular. Só que bem lá no fundo, eu sabia o que queria, queria você, jogando conversa fora comigo, falando sobre a sua rotina de estudo e a ansiedade ou mesmo filosofando como a vida é engraçada e irônica, como em um momento estamos rindo e no outro chorando. Eu queria ficar rindo para a tela do celular e rindo contra a sua camisa quando te abraçasse apertado, só que isso parece muito mais com uma utopia. Sinceramente, não vou dizer que o erro foi meu, que eu simplesmente poderia ter uma conversa com meu coração e dizer pra ele tomar vergonha e fazer o seu único e perfeito trabalho de bombear sangue para o meu corpo, e não ficar imaginando e criando uma realidade que nunca existiu. Depois de 5 anos, eu pensei que tinha superado, que não estaria chorando de novo como a criança de 12 anos que chorou ao perceber que aquele menino por qual era apaixonada não podia ficar com ela. Enfim, acho que essa sou eu de novo, agora talvez por motivos mais maduros mas o mesmo coração infantil de 5 anos atrás. Eu sei que as coisas poderiam ser mais fáceis. 

Nota: Tava revirando as notas do meu celular atrás de uma coisa para a minha vó e acabei me deparando com esse texto de 24 de novembro do ano passado. Vou admitir para todos que cada palavra escrita veio de mim e das coisas que naquela época estavam acontecendo comigo. Lembro desse dia direitinho e de como pensei em tudo isso em pé na parada de ônibus. No fim, quero dizer que continuei muito feliz, exatamente porque tinha conquistado algo que não imaginava e provado para eu mesma que era capaz. Então é isso, mesmo que a gente sinta falta de alguma coisa, isso não irá anular nossa felicidade.



É só sentar e escrever. Era o que eu me dizia quando costumava explorar mais as palavras para expressar o que penso e sinto. Não sei bem quando, nem o porquê, mas perdi o meu costume de escrever. As sentenças se formam na minha cabeça, mas no papel, as palavras não passam de unidades sem valor, parece um poema dadaísta com palavras aleatórias e sem conteúdo algum.
Sinto falta de gostar do que escrevo. Considerava até que podia ser, de certa forma, a minha contribuição artística para o mundo. Era aquela a minha arte, com seus defeitos e tanto a melhorar – hoje, releio os meus textos e me pergunto o que passava pela minha cabeça anos atrás para pensar que havia ficado bom. É, talvez a autocrítica seja um empecilho agora. E eu até que sou grata pela Letícia de quinze, dezesseis anos escrever o que viesse em sua mente porque é justamente isso o que eu não consigo fazer hoje em dia.
Não me leve a mal, eu não estou sofrendo. A vida anda um tanto parada, monótona, e antigamente eu odiaria isso, mas hoje, não. Hoje, estou bem. A calmaria se separa da felicidade por uma linha muito tênue para os meus parâmetros. Pergunto-me se é por estar bem que não consigo escrever, se a minha arte era baseada apenas nas coisas ruins que sentia, se é tão difícil assim falar sobre o que é bom. Já vejo tanta maldade, tanta mentira, tanta coisa ruim acontecendo, pessoas reais com problemas reais... É justo querer falar sobre amor e esperança? Estou certa em fantasiar histórias românticas, ver beleza onde parece não haver?
Olho para a mulher em pé no ônibus, de óculos de grau, cujos olhos parecem perdidos e cansados. O cabelo cortado me diz que ela é vaidosa, assim como as unhas pintadas de vermelho e a sobrancelha feita. Seu rosto não parece tão feliz, mas pode ser só cansaço. Concentro-me nela porque, de alguma maneira, quero acreditar que ela vai me inspirar a escrever alguma coisa. Mas eu só consigo pensar, pensar, pensar. Ela tem filhos? Um relacionamento amoroso? Será que está indo para casa ou indo trabalhar? Eu queria saber a história dela, porque... Bom, eu não sei o motivo, mas ela me despertou a curiosidade e era disso que eu sentia saudade.
E é também o que me causa inquietação. Os dias estão cinzentos, o meu corpo parece sempre mais pesado quando preciso levantar de manhã para ir para a faculdade e eu ainda preciso recuperar o sono de uns três dias atrás... A minha história parece ter caído um pouco na rotina, mas tem milhares de outras para contar, criar, imaginar. E eu não queria que ela focasse nas partes ruins, mesmo que a vida também seja feita delas, como um dos ingredientes principais. As histórias não precisam ser irreais... Quero mesmo que digam a verdade. Mas que não apaguem o que é bom, o que nos faz suspirar e nos dá coragem para viver. 
Hoje, eu quis escrever como eu fazia antes. Sem pensar muito, sem problematizar minhas ideias, sem calcular meticulosamente minhas palavras. Percebi que estava fazendo com a minha arte o que eu não podia fazer com a vida e isso não funcionou. Eu sou intensa, os sentimentos são viscerais dentro de mim, tudo é avassalador. Preciso de algum meio para externalizar tudo isso antes que eu exploda. 
Eu só não decidi ainda se é certo querer falar do que sinto de bom, mas vou continuar tentando, buscando reencontrar o meu espaço mediante o que eu escrevo. No fim das contas, se eu for falar sobre mim e o que eu vivo e vejo, sempre vou acabar falando de amor.

Bloqueio de escrita, ou eu acabo com você ou você acaba comigo. Eu decerto escolho a primeira opção. O título do texto é um trecho da música "Dinossauros", da banda Dingo Bells. Achei muito compatível com o que eu quis dizer. Ou talvez até caia em um paradoxo, mas isso fica para um outro texto. 



                                                                       (Via Pinterest)

Já vi muitos términos. Na maioria, infelizmente, com choros, raiva e mágoa. Acho que só uma vez que vi um que foi completamente amigável, de uma amiga minha com outro amigo meu. Eles nem choraram, mas eu, ave Maria, fui só lágrimas por um tempão. Até hoje digo que acho eles dois as coisas mais lindas do mundo juntos. Mas é isso, a vida continua, você conhece outras pessoas, troca saliva aqui, saliva ali, e aos poucos os amigos e parentes vão esquecendo que um dia existiu um casal entre você e outro alguém. Mas eu não gosto de fins, não sou muito fã do ponto final. Ele sempre me remente a uma tristeza muito grande. Demorou um tempo para que eu entendesse que eles são necessários. Afinal, aquele "e viveram felizes para sempre" não acontece para todo mundo, muito menos para todo casal. Na maioria das vezes você vai passar por muitas histórias antes de encontrar a "certa", quebrar muito a cara e se tornar um pouco mais duro para a vida, talvez se blindar mais. Lógico que você não vai começar algo pensando que vai terminar, né? Apesar do primeiro namorado muitas vezes ser só o primeiro de alguns, ele pode ser alguém para quem você vai voltar no fim do dia. 
Talvez por eu ter tanto medo de fins, que eu nem chegue a começar. Fico travada no primeiro "vamo sair" e se saio, nego beijo no fim da noite, dizendo que não estou preparada mesmo. Na maioria das vezes eu realmente não me sentia pronta nem para tentar. Na maioria das vezes, quem me pedia para sair e um beijo no fim da noite não era quem eu queria. Então continuo na minha, observando a vida e uma cadeia de términos sem fim. Já vi meu pai sair de casa e se sentar na garupa de uma moto e nunca mais voltar, o namorado da minha vó aparecer em um dia e depois não mais, o primeiro doeu demais, lembro do meu rosto de 5 anos encharcado, do meu grito. Aquele término acabou comigo. Acho que foi o único que senti demais. Ficou tão marcado na minha memória que até hoje lembro da minha franjinha querendo cegar meus olhos e do vestido quadriculado rosa, parecendo que ia para uma festa junina. 
O fim não se remete apenas a namoros e afins, amizades também chegam ao fim e dessas eu entendo direitinho. Já fiquei muito puta com amigos meus, já me senti diminuída, traída e até enganada. Já pus um ponto final em uma história que adorava, que pensava que teria capítulos sem fim. E foi aquilo, extremamente doloroso, mas necessário. Assim eu acabo ficando receosa, com medo de tudo e todos, porque não gosto desse estranhamento que abate as pessoas quando elas veem conhecidos que um dia significaram muito. Não gosto do sorriso sem graça, do aceno de cabeça e de seguir o rumo como se aquela pessoa simplesmente não tivesse significado nada para você. Também não gosto dessa ideia de que "tudo foi uma merda", como se os momentos bons tivessem sido completamente deletados e só ficassem os difíceis. Não gosto de como as pessoas se diminuem sobre as outras, de como arrastam relacionamentos por anos e anos, querendo proteger uma família que já conhece todos os seus erros. Não gosto de muitas coisas, mas acho que ficar me repetindo é ruim para o português. Por fim, quero dizer, que me desagrada (olha, sei usar outras palavras) o fato de ver pessoas como completos desconhecidos dentro da própria casa, dormindo em camas separadas, brigando toda hora, não se respeitando de jeito nenhum e nem trocando um beijo verdadeiro, porque ele parou de ser de verdade há muito tempo. É tudo por aparência e infelicidade. Nessa hora, por mais que doa e existam muitas variantes, é importante por um fim. Fechar o livro e guardar no topo da estante, daquelas que é necessário uma cadeira para ser alcançado. Não espere para se afogar em suas próprias lágrimas para entender que términos acontecem, para entender que aquela dor no peito passa e que simplesmente basta a gente escolher uma próxima história, de preferencia, com você de protagonista. 
                                          
                                                       
Nota: Queria dizer que voltei! Ninguém nem lembra de Aquela do cabelo azul e também não vou explicar! Mas queria também dizer que estava olhando os textos antigos e tá tudo errado viu, sinto vergonha. Enfim, espero que tenham gostado desse "comeback", que tenham lido e que essas palavras tenham significado alguma coisa para vocês. 
                                                               

(Via Pinterest)

Assim como a felicidade às vezes chega de mansinho, ocupando espaços desconhecidos e fazendo sorrisos sem sentido brotarem em nossos rostos, a tristeza também sabe chegar sem falar nada, se acomodando aos poucos no nosso peito, causando um peso desconhecido, se embrenhando nos nossos pensamentos como pequenas garrinhas que querem tomar tudo. Parece como em um dia ensolarado, em que o céu está azul, o sol brilhando sob nossas cabeças, quando do nada aparece uma nuvem carregada para nublar tudo. Você fica procurando por todos os cantos por um pedacinho de sol e nada. Às vezes simplesmente não entendemos porque essa tal de tristeza resolveu aparecer, por que esse aperto no peito se tornou sufocante, e por que as lágrimas que querem sair e você tenta controlar de todas as formas porque simplesmente não entende o que elas estão fazendo ali.
Uma coisa que aprendi com a minha irmã de quase um ano, é que sempre choramos quando algo está errado (só não quando é de felicidade, né). Mas porque algo estar doendo, porque estamos estressados e não conseguimos fazer nada, entre tantos motivos que não conseguiria por aqui. A questão é que o choro, assim como a tristeza são importantes, importantes para ligar uma luzinha na nossa cabeça e pararmos um pouco para olharmos em volta. Talvez seja meio clichê dizer isso, porque ultimamente todo mundo diz, mas estamos em um mundo apressado, onde os carros correm a mais de 80 quilômetros por hora, as mensagens piscam no celular a cada segundo, as informações e notícias aparecem a cada nova postagem quando atualizamos sem parar um feed como se não pudêssemos perder nada. E queremos fazer parte disso também, postando fotos, stories, mostrando como somos felizes e as novidades minusculas da nossa vida como a simples troca de esmalte. Talvez eu tenha percebido isso porque nos últimos meses estou direto em casa, cuidando da minha irmã, atualizando o feed do Instagram a cada segundo, lendo e lendo, conversando uma hora ou outra com amigos que estão ocupados. Não dizendo que estar sendo um momento ruim, tenho certeza que quando entrar na faculdade vou sentir falta dos dias que minha função era banhar o corpinho pequeno de minha irmã. Porém, esse tempo me permitiu observar um comportamento não dos outros, mas meu. E hoje, essa tristeza me atingiu, querendo conversar comigo, me mostrar que algo realmente estava errado. Eu tenho que observar mais a natureza e como tudo parece perfeito, ao invés de fotografa-lo. Tenho que conversar mais olho no olho ao invés de através da tela fria do celular. Tenho que me concentrar a assistir a uma série que eu sempre quis assistir, ou mesmo a um filme que me faça chorar, tenho que tirar a obrigação de está animada e pronta para fazer alguma coisa durante todos os dias. Talvez o que eu precise é derramar algumas lágrimas, rir da minha cara inchada, escutar minha música preferida. Mas acima de tudo, preciso viver um dia de cada vez, preocupada em realmente viver, aproveitar cada momento, inclusive aqueles de ficar com os meus próprios pensamentos tomando uma xícara de chá. Muito provavelmente, eu precisava escrever isso aqui, não pra você do outro lado da tela, mas para mim.

                                                               




Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossa pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
(Eu te amo - Chico Buarque)

Eu me sentei para escrever, encostei as costas doloridas na cadeira e fiquei olhado para aquela página em branco por vários minutos. Nada saia. Comecei a digitar inúmeras vezes e sempre acabava deletando tudo. Precisava entregar o texto de manhã para o jornal, talvez falando sobre as novas barbaridades políticas em um tom ácido e ao mesmo tempo polido, ou da superfacilidade pregada nas redes sociais. Haviam tantos assuntos na minha cabeça e discursos montados e mesmo assim eu só conseguia pensar em você. Deitado na cama, com o corpo atravessando todo o colchão, pois você é espaçoso assim, dando espaço apenas quando me encaixo ao seu lado. As costas estavam expostas, mostrando os pequenos sinais distribuídos ali que você odiava, mesmo não conseguindo ver. Os cabelos curtinhos coloriam o travesseiro e sorri vendo o seu peito subir e descer. Então hoje, nesse meu velho espacinho no jornal que me vê falar sobre tudo e todos, decidi falar sobre você. 
Namoramos por 2 anos, mas já nos conhecíamos desde a época da faculdade, parece que aqueles anos entre corredores e provas foram tão apressados que não tivemos a chance de perceber que nos gostávamos. Mas ali nos tornamos bons amigos, sempre conversando e falando bobagens sobre assuntos aleatórios. Você era meu conforto em forma de gente, quem eu podia contar e ligar chorando quando ia mal em uma prova (sou nerd assim). Então o tempo foi passando, te vi beijando uma boca ali e aqui, me vi respondendo mensagens engraçadinhas do Instagram de outros caras e nós continuávamos ali, um do lado do outro, agindo como se já não soubéssemos que todo o descaso com o nosso coração doía. 
Foi só em uma festa, depois de quase um ano que acabamos a faculdade que nos beijamos. Você sempre foi o tipo de cara que me tirava pra dançar, não tinha vergonha das pessoas verem o seu corpo balançando, e naquela noite de novembro, eu balancei junto a você. Nossos corpos se entrelaçaram e sua boca grudou forte contra a minha, tirando todo o meu ar. A música era daquelas que não dá pra entender nada, mas ali se fez a minha preferida. Talvez naquele dia a gente tenha feito loucuras demais, se entrelaçado até criar nó. 
Assim, toda a intensidade que nos negamos virou fogo, nos queimando por completo. Por isso, depois de dias intermináveis juntos, decidimos que era hora de um ponto final. Muito mais por mim que havia virado puro caos, do que por você, que chorou enquanto eu disse que já não aguentava mais.  Amar você naquele momento me consumia, me tirava dos eixos e acabei me perdendo dentro de mim. No fim, você aceitou. Foi embora sem pensar e eu só conseguia pedir que você não dirigisse como um louco. Naquela noite eu chorei, agarrada com o travesseiro que exalava o seu cheiro. No outro dia eu contemplei tudo de bom que havíamos vivido e aceitei. Assim, ficamos 2 meses sem se ver (engraçado como o 2 nos persegue), até que hoje você bateu na minha porta. Suado, dizendo coisas atropeladas que mesmo não entendendo, me faziam chorar. Agora a saudade que me consumia, e olhar para você parado ali sem te tocar me consumiu muito mais do que o tempo que passamos distantes. Como sempre, foi tu que deu o primeiro passo, disse feito um louco que me amava e que aquilo o estava matando. Lógico que te beijei, e não foi como se estivesse voltando a vida, pois estava conseguindo viver sem você, mas foi como se as peças finalmente tivessem se encaixado novamente. 
Nos entrelaçamos novamente, embaralhados em nós, tentando andar com pernas grudadas e lábios que não se soltavam, intensos demais. Foi quando peguei no seu rosto e disse que se seguíssemos por aquele caminho iriamos nos destruir novamente. Então sentamos no tapete no meio da sala, sem se tocar, e agimos como os dois amigos que foram o conforto um do outro por muito tempo e percebemos que tínhamos que está conectados assim antes de qualquer coisa. Precisávamos conversar, rasgar o que existia de mais feio dentro do nosso peito, para que pudêssemos nos tornar puros um para o outro novamente. Depois de tanto falatório, nos entrelaçamos, mas sabendo que não deveríamos nos embaralhar e formar aquele nó que sempre acontece com os fones de ouvido. Deveríamos seguir em linhas paralelas, uma do lado da outra, na mesma direção, se cruzando, se tocando, mas nunca mais perdendo o rumo de si.

Nota: Esse texto é o efeito de sentar na frente do computador e procurar de alguma forma inspiração.Talvez por isso que tenha minhas dúvidas sobre ele. Sinto que falta textos mais "discurso" porque estamos passando por uma fase complicada no Brasil, sobretudo com a educação, mas a minha cabeça não consegue juntar as peças corretamente para trazer um trabalho legal para vocês. Enfim, espero que tenham gostado de "Consumidos por inteiro". P.S.: Essa música do Chico é sensacional!

                                                            


levou um tempo, mas agora sou forte porque percebi que eu tenho
eu, eu mesma e eu
foi tudo o que tive no fim

Sinceramente, você esperava o quê? Que eu permanecesse do lado esquerdo da cama, esperando você chegar de madrugada depois de um dia de trabalho "cheio", e eu fingisse que não sentia o cheiro diferente em você, mesmo que tentasse disfarçar com o seu perfume que me causava náuseas? Eu esperei por tempo demais, mas era jovem e ingênua e pensei que ela realmente estava no seu passado. Então aceitei todos os seus beijos, a suas juras e os sussurros no meio da noite. Acreditei no canto manso que escorria pelos seus lábios, envenenando os meus pensamentos. Sou mais inteligente que isso, e mesmo assim me permiti enganar pelas suas mentiras. Jurei que o seu eu agora era diferente, que você estava mudado, ou que eu podia lhe ajudar a mudar. Mas mulher não tem que mudar ninguém, não é? Não sou nenhuma reabilitação para caras maus. Bem que todos tentaram me avisar, inclusive a sua família, disse que eu veria com os meus próprios olhos o quanto você é capaz de destroçar alguém. E eu vi. 
Lembro quando peguei o seu celular para ver uma foto que tínhamos tirado e vi uma notificação chegar, não tinha nome, só um número e a curiosidade foi maior do que eu poderia aguentar. Naquela tela fria, li que ela estava com saudade de você, saudade de te ter só pra ela. Travei a tela do celular e me joguei na cama macia, pensando que tinha sonhado sobre aquela noite, pondo uma lingerie bonita e sobre como o nosso futuro parecia bonito e você por aí, me traindo com mulheres, no plural mesmo. 
Levou um tempo, para que eu pudesse me reconstruir, botar as suas roupas em uma mala e te mandar embora. Você disse que me amava, até implorou, como bom controlador que você é, mas as minhas defesas estavam erguidas, e não tremi em nenhum momento quando o seu rosto começou a se retorcer de lágrimas. Naquela mesma noite, a primeira sem o seu cheiro e as suas roupas jogadas pelo canto, eu me diverti. Pus aquela lingerie bonita, uma música boa, pedi comida e fiquei dançando até os meus pés doerem, olhando para o espelho e vendo o quanto eu sou forte. Não chorei, não queria derramar mais nenhuma lágrima por você, ao invés, sorri, lembrando do voto que fiz comigo mesma. A partir dali eu seria minha melhor amiga. Eu não me decepcionaria, não me machucaria, pôs já tinha aprendido demais ao longo do caminho o que era sofrer. Você, mulher, que também passou por isso, dance comigo, cante comigo. Podemos ser nossas melhores amigas e sempre mais fortes. 
Nota: Tá mais do que claro que todo esse texto foi baseado na música "Me, myself and I" da linda, maravilhosa, deusa, da Beyoncé. Lógico que a tradução do nome "Me, myself and I" não fica tão legal porque a gente não tem essas variações da palavra "eu". Mas a música é maravilhosa e tô com ela impregnada na minha cabeça e simplesmente precisava escrever algo, porque ela em si já tem uma história completa e eu quis trazer um texto diferente do meu habitual. Espero que tenham gostado e escutem essa lindeza (a versão mesclada com Sorry do Homecoming é divina). 
                                                               


Você é até legal, mas eu gosto mais de mim.


Eu sabia, no instante em que olhei para o seu rostinho ordinário, que eu não era e não sou o tipo de mulher para você. Sabia que, daquele jogo todo ao qual você me condicionou, eu só conseguiria sair de uma forma: perdendo. Mas mesmo assim, nós jogamos. All in. Eu nunca tive medo das consequências porque, ao contrário do que eu pensava em outras épocas, eu adorava jogar. Eu adorava provar para você como eu podia ser inalcançável e, nós dois, inevitáveis. Tivemos momentos em que eu só queria matar você; outros, até quase te disse um "eu te amo" enviesado. Eu quase cheguei a pensar em querer qualquer coisa a mais, quase cheguei a acreditar que você me sorria diferente de todas as outras maneiras. Eu quase achei que sabia como você pensava e que você também conseguia me ler. Quase pensei em te desafiar a passar uma tarde inteira só conversando, sem trocar um beijo sequer, por pensar que éramos bons em outras coisas, fora o carnal. Eu quase esqueci que era  um jogo quando você precisou me chorar seus problemas, mas só para mim isso foi especial. E diante de todos esses "quases", o último: eu quase esqueci que não éramos nada além de jogadores.
Mas não, meu bem, eu não esqueci. Nenhum quase desse chegou ao fim. Você sempre foi uma dúvida e, enquanto era divertido, eu amava aquilo. Aquilo, não você. Eu amava como nós éramos, sem regras predeterminadas, sem contratos, sem amarras e sem a obrigação do amor. E, no fim das contas, você também era engraçado, não havia um dia com você em que eu não risse, por menor motivo que fosse. Eu achava que a boa companhia me bastava para o jogo ser interessante.
Meu bem, eu nunca me deixei amar você. Eu nunca, nem mesmo, deixei você me amar. Você lembra, não lembra? Todas aquelas vezes em que eu te disse para manter uma distância segura, talvez você pensasse que eu me preocupava demais com você, mas a verdade é que eu não queria me machucar. E foi então que eu decidi ir embora; no dia em que você não apareceu no local e na hora marcada e eu voltei para casa chorando. Não havia sido a primeira vez, mas naquela, eu percebi como eu me importava e foi aí que eu chorei mais, mas de raiva de mim mesma por chorar por alguém como você, que ainda estava no jogo quando eu já tinha jogado minhas cartas fora, mesmo que contra a minha vontade.
E sabe por que eu sei que nunca te amei? Eu teria lutado se sentisse amor. Eu teria chorado por mais noites, além daquela. Talvez eu deva ficar feliz pelo choro daquele dia. Foi com ele que eu vi onde estava me metendo e antes mesmo de me deixar afundar, eu fui embora. E indo embora, lembrei do que você disse, perguntando o porquê de não podermos mais jogar, desesperado por perder uma jogadora como eu, que aceitava as suas regras, tantas que eu nem sabia que tinha. Você queria saber até porque não podíamos simplesmente parar de jogar e tentar outra coisa. Mas sabe de uma coisa, meu bem? Eu não poderia te agradar. Eu não sou esse tipo de mulher.

Acho que nunca escrevi em um tom parecido com esse texto, mas a música "Sola", da Jessie Reyez, começou a tocar em uma playlist aleatória e saiu estas palavras. Na verdade, talvez não seja este o sentido que a música queria espelhar, mas era isso o que eu queria colocar no texto. O tema não tem a ver com traçar uma comparativo entre "tipos de mulher", mas com as expectativas que um cara pode colocar em uma mulher e, no fim das contas, ela apenas querer participar daquele jogo. Imaginei uma mulher autônoma, madura emocionalmente, e saiu isso. A ilustração é do Felipe Cardoso (@felipedocha).

      
(Reprodução:Pinterest)

Lembro da primeira vez que disse "eu te amo". Não o eu te amo para qualquer familiar ou amigos, mas o "eu te amo" de quem preenchia o meu peito com outro tipo de paixão, aquele que me tirava do eixo e me fazia passar noites em claro, mas que também era o meu conforto de tantas horas. Mas eu estava falando sobre a primeira vez que disse as três palavrinhas mágicas. Nós tínhamos subido 2 lances de escada com as mãos lotadas de sacolas do supermercado e tínhamos sentado no chão da cozinha e guardávamos os quilos de arroz, latas de milho e enchíamos os potes de tupperware - que minha mãe tinha me dado - de mantimentos, quando entre um feijão e um requeijão eu virei e encontrei você, ajeitando o óculos no rosto e lendo o rótulo da ricota, um habito que você adquiriu depois de descobrir uma intolerância esquisita. O seu rosto estava concentrado, o nariz franzido e naquele segundo eu sabia que te amava, mesmo com as neuroses que me infernizavam. Então cutuquei o seu ombro e deixei as palavras escaparem da minha boca, tão naturalmente como nunca pensei que aconteceria. Não existia tremedeira, nem desconforto, apenas a verdade, eu amava você, e que você lidasse com isso. Mas então o sorriso tomou conta dos teus lábios e foi a minha vez de escutar aquelas palavras pequenininhas escaparem de ti. Pulei em seu pescoço e nos beijamos ali, rodeados de sacos de macarrão, com um pacote de cuscuz nas suas pernas e uma ricota em sua mão. Foi o melhor eu te amo que eu poderia dar e receber. Depois nós acabamos de guardar tudo e nos sentamos no sofá, tentando achar algo de bom na Netflix, mas acabamos rodando boa parte do  catálogo e assistindo um episódio repetido de uma série que já amávamos.
Hoje, depois de uns anos compreendendo o sentimento um do outro, olho para trás e tenho orgulho da nossa história de quase uma década. Não demoramos a namorar, nem muito menos a nos beijar, mas demoramos quase 2 anos para finalmente falarmos as palavras que as pessoas amam explanar na internet. Você sabia desde o começo que eu queria algo real, junto com sentimentos que estivessem presos ao meu caminhar. Então todo aquele momento foi cercado por quem éramos e somos. Foi necessário noites em claro, carícias, saudade, novos apartamentos e viagens para nos descobrirmos um pouquinho. 
Toda essa história continua a mesma, a diferença é que agora aparecem cabelos brancos de estresse entre os fios escuros da minha cabeça, você trocou de óculos várias vezes e tirou centenas de fotos minhas. Andamos descalços na praia ao amanhecer, dançamos no escuro da nossa primeira casa, na noite que fizemos a mudança e descobrimos que teríamos que aturar um ao outro por um tempo muito maior e não poderíamos fugir depois de uma discussão pesada. 
O eu te amo dos nossos 20 e poucos continua o mesmo dos nossos 30 e bolinhas, só que agora temos muitas páginas a mais do que aqueles jovens jogados na minha velha cozinha. Temos sofrimento acumulado e um amor transbordante.
A realidade é que a gente não queria se amar, simplesmente amamos, sem direito de devolução.

Nota: Diferente do último texto que tivemos aqui, quis uma coisa mais amorzinho e totalmente ficcional. Espero que tenham gostado.

                                                                         



                       
                                                        (Reprodução: Pinterest)

Sinceramente vi que depois de um tempo era importante ter uma pausa. Uma pausa para sentimentos controversos e que insistiam em invadir a minha mente diariamente. Não é como se eu tivesse dito para os meus sentimentos que parassem e eles simplesmente obedecessem, mas agora consigo enxergar com clareza, vendo minuciosamente a realidade. Quando o meu celular chama e vejo que em um dia atípico é você, ainda existe aquela animação lá no fundo, mas eu acabo conversando com ela e dizendo que nós estamos dando um tempo, afinal. 
Muitas pessoas dizem que para você superar alguém ou algo você precisa começar algo novo, e sinceramente, isso é uma baboseira. Não vou dizer que não existem outros além de você, outros que realmente gostam de mim, porém, também quero dar um tempo deles, não quero tapar um buraco com gazes e algodão quando eu posso regá-lo com o meu próprio sangue, dando tempo para ele se acostumar as batidas tranquilas e uma vida sem romances. Nós sofremos demais durante os últimos tempos e agora queremos apenas trabalhar com tranquilidade. 
Não estou dizendo que o amanhã não irá existir e que não me darei novas oportunidades, apenas digo que agora é um tempo de celebrar quem eu sou, na minha pura essência, lendo os livros que eu gosto, escutando a mesma música 200 vezes, assistindo filmes adolescentes e que eu adoro, sem me preocupar com o que devo dizer, com o que você deve está pensando ou se simplesmente está tudo bem. Entendo que você é fechado demais e não é nada tagarela como eu, prefere se fechar em seu mundo onde os seus cálculos chegam a números infinitos e que precisam de uma reticências, ou simplesmente ficar trancafiado em seu quarto jogando vídeo game por horas a fio. 
Demorou um tempo para que eu percebesse que não ia dá certo, mas que tudo bem. Você de certa forma talvez nunca nem tenha se tocado que eu gostava de você, mas me disse que estava com o coração partido por causa de outro alguém, e naquele momento eu me quebrei junto a você. Chorando por simplesmente ter me permitido sentir tudo aquilo que eu já tinha sentindo antes. Demorou mais um tempo para eu perceber que passar por isso tudo, com você, meu primeiro amor, foi mais importante ainda, pois pude reencontrar a menina de 12 anos com o coração quebrado e finalmente nos compreendemos. Estamos pondo um ponto final nisso tudo. Por que no fim do dia, aprendi demais com tudo isso, e foi uma jornada muito mais comigo mesma do que de nós dois, dessa forma, saio conhecendo muito mais sobre mim do que um dia saberei de você. Por isso, toda essa pausa é importante, para que eu faça as pazes com o tempo, comigo, e que acima de tudo aprenda a gostar de cada particularidade minha. Enfim, acho que é isso.
Sabe, não pule de galho em galho como se a ideia de passar um tempo "só" fizesse mal, a tranquilidade de se namorar por um tempo é um remédio e tanto para um coração machucado.

                                                          


(Via pinterest)

O caminho para o amor próprio está mais para uma grande escalada. E acho que ela está equiparada a subir o Evereste. Eu com certeza não atingi o topo e provavelmente vai demorar um bom tempo para que isso aconteça. Falar e escrever é muito fácil, inclusive esse texto é uma fichinha para o que é isso de verdade. 
O começo é porque estamos condicionadas a procurar falhas, em nós mesmas e nos outros. Procurar falhas parece ser um grande hobby da maioria das pessoas. A gente olha nossa bunda no espelho e pensa: puxa, a bunda daquela modelo não tinha uma estriazinha! Nem mesmo um furinho de leve. E a barriga pode estar de qualquer jeito, mas sempre vai ter a gordurinha aqui e ali. Os seios poderiam estar um pouquinho mais empinados e o nariz facilmente poderia ser igual a de tantas mulheres que fizeram rinoplastia. A verdade é que é difícil se enxergar no espelho e se sentir maravilhosa, linda para caralho. Mas sinceramente, o pior não chega a ser isso. O pior é nos rebaixarmos porque simplesmente achamos que não existe amor para nós, que de toda forma nada vai dar certo, e que somos insuficientes e chatas demais. 
Esses são pensamentos que já me inundaram muitas vezes, principalmente quando você gosta de alguém e esse alguém não gosta de você. Simplesmente parece que é difícil admitir que às vezes as pessoas não gostam das outras e que não temos culpa nenhuma nisso. Já me culpei demais por não ser amada, e o meu maior erro foi não perceber que antes de qualquer dessas coisas eu precisa unicamente e precisamente de mim. Saber que não existe nada de errado em ser eu e que mesmo os defeitos me fazem ser assim. Lógico que não estou falando para você não mudar. Devemos mudar e isso naturalmente vai acontecendo ao longo dos anos, e essa é a graça da coisa: nos reinventarmos cada dia, descobrir uma nova pessoa ao longo das décadas. 
Não é errado ter dias ruins ou simplesmente não gostar de nenhuma foto entre mil selfies. O amor é uma construção e estamos no caminho desse amor desde que nascemos. Não é fácil estar com alguém 24 horas por dia, com todos os pensamentos e incertezas, então é claro que uma hora ou outra a gente queira ser outra pessoa, com outra vida e outros desafios. Somos reais! E é complicado não viver na imagem fabricada da internet, aonde a felicidade é infinita, as brigas políticas são recheadas de palavrões e paisagens e mulheres são todas iguais. O que nos faz bonitas e únicas são as nossas pequenas particularidades, como as cicatrizes de acne que contam uma adolescência espinhenta, os seios caídos de tanto amamentar, ou como as unhas do dedão do pé são diferentes porque uma caiu na infância. Nossas marcas, sinais e diferenças contam a nossa história, se revelando bela em cada curva.
No fim, essa é uma jornada que acabou de começar e ainda restam muitos quilômetros para serem percorridos. Chorar agora e até o nosso fim faz parte, o que não deve fazer parte é nos encarramos como problema, quando no fim, somos solução. O amor cura, e chegaremos no dia em que seremos o nosso próprio antidoto. 
                                                                                                                                                                   
                                                             

My body, my fucking rules.



Quando disseram que você não era capaz porque era apenas uma menina. Quando disseram que você não podia brincar com carros e bola, pois era frágil e se machucaria. Quando reclamaram que você não estava usando brincos e toda menina usa. Quando brigaram com você por ter falado uma palavra “feia” e não disseram nada quando seu irmão disse a mesma coisa (e ainda pior!). Quando compraram sua primeira sandália alta e você, mesmo sem gostar, usava, porque te disseram que meninas fazem isso, obedecem. Quando te deram de presente acessórios de cozinha de brinquedo, como panelinhas, pratos e vinha até com uma pia, mas a sua relação com a cozinha era mais sobre você poder comer tudo o que tivesse vontade.
Quando seu pai disse que você só namoraria aos 18 anos, mas encorajava seu irmão a beijar as “menininhas” da escola. Quando sua mãe falou para você usar mais vestidos, porque precisava parecer mais “mocinha”. Quando você tinha a primeira festa de 15 anos para ir e quiseram alisar seu cabelo – doía, mas você ouviu que “para ser bonita, precisa sofrer” e se contentou com aqueles puxões e deixou que queimassem seus cachos. Quando você começou a desenvolver seu corpo e tinha vergonha de mostra-lo porque alguém disse que você já tinha o corpo de uma mulher formada. Quando disseram que você precisava fazer academia, para ter a cintura de Barbie – mesmo que ninguém tenha perguntado se você queria a tal cintura.
Quando você surtou porque seu irmão podia ir para a festa, mesmo sendo mais novo que você, e você não pôde porque alegaram que não é coisa de menina. E quando disseram, depois desse surto, que você não arranjaria namorado nenhum com aquelas crises.
Quando você teve o seu primeiro beijo e o menino espalhou para a escola inteira que você deixou que ele tocasse em você, mesmo que fosse mentira, e todos julgaram-na de puta – mas ele foi vangloriado. Quando você começou a namorar e o cara era ciumento, possessivo, não queria nem que você tivesse o contato de amigos homens no telefone e você não percebeu, mas ele falava mal das suas amigas para que você não acreditasse nelas quando elas dissessem que esse relacionamento era péssimo para você.
Quando seu pai traiu sua mãe e todos na família disseram que ela devia ter "segurado" ele melhor. Quando você e seu namorado tiveram a primeira vez de vocês e ele achou que você tinha amado, mas na verdade, ele tinha te tratado como um mero objeto. Quando você descobriu que ele não te amava, só queria sexo e sumir na manhã seguinte.
Quando você foi chamada de puta mais uma vez, mas pelo seu pai, que descobriu que você transou antes do casamento, debaixo do teto dele, mesmo que o seu bendito irmão levasse uma menina nova toda semana para casa.
Foram todas as vezes em que você se moldou, se sacrificou e foi apedrejada por ser mulher. Foram as vezes em que tentaram jogar em você padrões e tradições que criaram para nos controlar, nos deixar de fora desta coisa toda de comandar o mundo. Acontece que você pôde perceber, depois, que você nunca precisou ter a cintura de Barbie, que você tinha mais caráter do que o seu irmão, que sua mãe merecia ser tratada como toda mulher merece, que você queria ter prazer ao fazer sexo, que queria estar em um relacionamento e se sentir livre e respeitada (o mínimo, é claro), e que seu corpo, assim como a sua mente – o que, depois, também vimos que são uma coisa só – merecem ser contemplados, valorizados, preservados como preciosidades.
Você jogou fora todas as saias que tinha no armário, parou de usar brincos e engordou alguns quilos. Abriu mão dos números. Conheceu pessoas legais, que só te chamavam de “amor” e coisas assim. Arranjou vários namorados e namoradas, mesmo que ainda surtasse vez ou outra. Machucou os joelhos várias vezes quando descobriu que amava jogar futebol, mas caía sempre, pois nunca deixou de ser desastrada e aquilo já não era mais um problema. Abraçou mais as causas de suas amigas e de outras mulheres, entendendo que todas elas, em algum momento da vida, sofreram e sofreriam de pressões sociais pelo simples fato de serem mulheres; e muitas vezes, não podem nadar contra a maré, como você fez. Nunca mais deixou que encostassem uma prancha no seu cabelo, os cachos pareciam ser uma metáfora sobre a sua vontade (e o cumprimento dela) de ser livre.
Você ainda tinha várias questões consigo mesma, inseguranças e paranoias que seriam difíceis de cicatrizar e renderiam longas sessões com o seu terapeuta. Mas foi quando você se soltou das algemas que te prendiam em um ideal de mulher perfeita, depois de muita luta e muita dor, que você se tornou a mulher mais feliz e a única dona do seu mundo.

              


National Geographic Traveler 2012
(via Pinterest)

Hoje tomei banho de chuva.
Foi engraçado porque já fazia muito tempo que eu não deixava de abrir o guarda-chuva. Tomei por livre e espontânea vontade, em um impulso, completamente diferente de quando eu era criança e era regra me molhar se começasse a chover – sabe como é, né, cidade do Nordeste...
A questão é que eu estava ali, deixando a água cair em mim, pensando como era louco o fato de que parecia chover muito mais do que de fato caía água na minha pele. Mas ali, olhando para o céu, eu também pensava como era ainda mais louco que eu estivesse achando incrível demais que seja possível cair água do céu, ainda que eu saiba das explicações científicas e tudo mais. Eu, que rio da cara de criacionistas (com todo respeito) com meus polegares opositores, estava ali, admirando a água que cai do céu, gelada, abundante.
Os fenômenos naturais sempre me alcançaram de formas diferentes. Nunca foi apenas chuva, nem apenas estrelas cadentes e arco-íris. Parecem ser mais que isso.
Quando me reencontro com gotas de chuva, meu queixo batendo de frio, eu penso que reencontro meus sonhos que deixei para trás, na última vez que tomei banho de chuva. É incrível me perceber diferente hoje, com o cabelo mais indeciso, a pele passando por várias mudanças, uma tatuagem, a cabeça com várias novas ideias e algumas reconfiguradas, posso dialogar facilmente sobre autoestima e relação com o corpo, defendo causas que antigamente me pareciam distantes... Talvez só as unhas mantiveram-se pintadas de preto. Provavelmente, isso será a última coisa que mudarei em mim.
Eu me sinto ótima em saber que não preciso de muito para me colocar no eixo. Sem falar na felicidade que tenho em vestir a roupa quentinha depois, pegar no cabelo molhado e ter a certeza de que, se eu me perder, virão outros dias de chuva. Mesmo que demorem e que fique muito quente antes de finalmente esfriar, a água vai cair. Vou sentir tudo de novo.

Niguém solta a mão de ninguém. arte da Tereza Nardelli

Às vezes, parece que não aconteceu; eu volto para aqueles dias em que estávamos entre os dois turnos e o clima ainda permite uma esperança viver. Isto nunca foi tão real: ela é a última que morre. Sua morte trouxe más notícias; ele ganhou. E eu acredito que a esta altura, você saiba sobre quem estamos falando. Sim, ele, a vitória de quem não foi feliz para as pessoas sensatas. Desde o resultado, eu não consegui desejar boas coisas para os próximos anos. Não consigo torcer para que ele, pelo menos, não faça coisas tão ruins. Eu só sinto medo e é por isso que eu demorei tanto tempo para conseguir escrever.
Sinto medo por mim, pelos meus amigos, pelo meu namorado, pelas minhas irmãs, parte da minha família... Muitas pessoas ao meu redor sofrem por conta do preconceito e do ódio que ele prega. Eu ensaiei vários discursos sobre o que eu sou (envolvendo a formação de professora e o ser mulher) e sobre o que eu acredito, coisas que justificassem o fato de eu ser contra tudo o que ele diz, mas agora eu sei que nada disso é necessário. Basta que eu seja humana e defenda os direitos de todos, eu já não posso concordar com metade do que ele representa, assim como eu não podia me dar ao luxo de lavar as mãos e tratar esta eleição como "tanto faz".
Foi decisivo saber quem votou nele. Mostrou a verdadeira face de alguns que eu não fazia ideia de quem eram. Tornou irreversível alguns conflitos e, sinceramente, não me arrependo. Pelo menos não por enquanto, que ainda estou ferida por tanta bobagem que ouvi, vi e li. Talvez, daqui alguns anos, eu até queira voltar a falar. E será por dois motivos - apenas por eles: para dizer que eu estava errada, que ele não foi tão horrível quanto sinto agora que será; ou para dizer que eu estive do outro lado e, assim, certa pela minha decisão. Na verdade, uma correção: nas duas situações, eu sinto orgulho do lado que escolhi. Sinto orgulho dos movimentos, da resistência, da corrente que foi criada e eu espero de todo coração que não se quebre por qualquer circunstância. É agora que precisamos apertar mais a mão, fortalecer mais os pulsos. Nós precisamos apoiar os que estão mais desamparados, mas precisamos nos deixar chorar também. São tempos muito difíceis para todos nós que sentimos por isso. Os que não sentem ainda, não sabem, mas sentirão também. Pode não parecer no princípio, mas o ódio machuca tanto o destinatário quanto o remetente.
Estou tentando pensar um pouco como Dumbledore, que em uma de suas primeiras falas já nos encoraja a chamar o nosso medo pelo nome que lhe foi dado. Talvez seja a hora de encarar e pensar em outras formas de resistir a estes tempos. Nós somos #EleNão. Lutaremos para que Bolsonaro não tire nossa voz.

               As ilustrações simplificadas e sensíveis, em preto e branco, de Anna Macht #ilustração #gif #annamacht #feminism




Amar é verbo e verbo é uma ação. Isso é português básico, mas acredito que haja uma variável grande em relação a essa palavra e muitas outras. Elas estão deixando de ser verbo e partindo para o substantivo, aquele que é só nome e nada faz. Eu já quis demais, me apaixonei por muito tempo, e isso tudo ficou guardadinho dentro do meu peito, tornando todas as palavras e sentimentos que requeriam ação, se tornarem simples nomes. 
E eu fiquei parada e temo dizer que talvez ainda esteja assim. Desejando ele, querendo ele e me apaixonando novamente, porém, calando todos esses sentimentos, como se lançasse um feitiço e eles tivessem que permanecer parados, presos dentro de mim e nunca de fato alcançando o seu objetivo. Provavelmente é medo. Medo de tornar isso tudo real e perceber que não é nada igual aos meus sonhos e imaginação, e que talvez meu coração fique em pedacinhos. Nessas horas é engraçado, pois me pergunto: De alguma forma ele já não está em pedaços? E eu digo que provavelmente é melhor assim, com um coração quebrado, ações em pausa e uma dignidade intacta. 
Não é como se eu quisesse um amor de cinema, onde tudo é perfeito e até o sol fica na temperatura correta para um dia com um encontro ideal. Sinceramente, eu simplesmente quero não querer, não quero deixar essas palavras guardadinhas, quero que elas parem de existir por um tempo no meu vocabulário. Não quero mais está apaixonada por ele, porque sei que continuarei parada e não vou fazer nada para que tudo o que eu imagino se torne realidade, e no fim, estou cansada, levando um peso em meu coração que parece pesar toneladas. Talvez isso venha do fato de mesmo ele não querendo me machucar, tenha feito isso demais e por eu ser puro exagero, ter triplicado todo esse sentimento. As mensagens não respondidas, o descaso com alguém que é pura molecagem, e gosta de gostar das pessoas. No fim, fico triste e despedaçada por ter caído nessa novamente, em uma história sem sal de dois adolescentes que simplesmente não fazem nada, que o "ele" e o "eu" não conjugam verbo algum. O meu "eu" não foi por falta de querer, quis tanto que no final se tornou nada. E ele, acredito que nunca nem pensou em conjugar esse verbo comigo.

                                                     


I L S E J O S E

Mordeu a língua quando percebeu que metade daquele discurso empoderado cairia por terra porque não vivia o que dizia. Mandava que outros amassem, mas não se sentia amada por si mesma. Dizia para que militassem, segurassem suas bandeiras e lutassem suas próprias lutas – mas sempre que ouvia alguém com opiniões divergentes das suas e essa pessoa de alguma forma levantasse um ar de superioridade, geralmente uma hierarquia fundamentada no patriarcado, se calava, se encolhia, preferia guardar suas contra argumentações para seus textos e pensamentos.
Precisou criar coragem para se encontrar. Porque também é confuso se encontrar dentro da militância. É difícil segurar o que você defende e estar ciente do que não concorda. Depois disso, também é difícil possuir o discurso próprio dentro disso e se sentir seguro o bastante porque às vezes mesmo dentro do movimento, você se sente contestado, diminuído diante da militância de outros.
Ah! E ainda tem quem diminua sua luta em detrimento de outras. Porque não basta você se sentir menor, os outros contribuirão para isso. Morde a língua quem tem vergonha do que pensa e enquanto você estiver lutando por si, pelo seu espaço, não sinta medo. E sim, isso é para você, Letícia, que ouve seu pai falando do que ele pensa, discorda de tudo e tem medo de rebater. Isso é para você, Bruna, que ouve piadas gordofóbicas e cai na bobagem de pensar que precisa mesmo emagrecer pelos outros. É para você, Elis, que é perseguida por olhares masculinos na rua, com medo, e olha que você está de calça jeans e camiseta! Imagine! É para você, Marina, que tem jornada de trabalho tripla porque trabalha fora, é mãe e ainda tem uma rotina em casa porque seu marido não faz nada em prol do funcionamento doméstico. É para você, Júlia, que pretende adotar ao invés de engravidar para ser mãe e ouve que você está fugindo o que foi predestinado a você, como se alguém soubesse sobre o destino de qualquer pessoa. É para nós, mulheres, que somos vítimas de feminicídio todos os dias, da violência na rua e dentro de casa, do machismo por vezes entre nós mesmas. É por nós que precisamos agir. Precisamos de sororidade.
Precisamos parar de morder a língua pelos outros e gritar mais pelas mulheres que somos. Podemos e somos fortes demais. A mulher já conquistou muito, mas ainda é pouco em comparado a tudo que tiram e privam de nós. O feminismo não deveria ser coisa de mulheres que querem fazer parte de algum movimento, que são mais “rebeldes” (com causa!) e de meios mais informados. O feminismo, hoje, já é uma questão de sobrevivência.

Há umas semanas, Ariana Grande nos deu a graça do clipe de "God is a woman", repleto de referências de arte e do pop, e hoje, que eu fui atrás de mais significados, me acendeu a vontade para o texto. Eu me expresso muito, muito melhor escrevendo do que falando. E acredito que consigo até organizar melhor as coisas em que venho pensando quando coloco em palavras escritas. E pelo que tenho lido, assistido e ouvindo ultimamente, podem esperar mais textos do mesmo assunto e vamos praticar mais da sororidade, amigas. ♡



            

                       Algumas flores são necessárias para reconstruir um coração despedaçado

Eu não consegui apagar todas as mensagens. Na realidade elas continuam todas lá, arquivadas no aplicativo como quando se guarda algo no fundo da gaveta e não quer mais ver. Só que tudo isso é tortura pura, daqueles que fazem nosso peito doer e os olhos arderem. Por que eu não posso simplesmente apagar tudo? Por que sempre guardamos algo no fundo da gaveta quando simplesmente podemos jogar no lixo? Talvez seja uma forma de auto tortura que estamos programados a fazer. 
Sempre nos dizem que é só mais uma fase, só mais uma crise. E quando não for? E se agora o fim for real? Realmente precisamos nos machucar tanto para perceber que aquilo não dá certo mais? Ouvi de tantos que isso ia passar, que essa dor que você causou no meu peito e essa eterna solidão ia ir embora quando eu menos esperasse, mas como eu vou apagar todos os nossos caminhos se nem consigo apagar as nossas mensagens no WhatsApp. Mensagens essas que demostram o tamanho da solidão que eu me propus. Você era puramente indiferente a todas as minhas mensagens e respondia dois dias depois como se todo aquele tempo online não fosse nada.
O meu problema era achar que estava tudo bem. "Ele é assim", pensava eu. Tentando justificar todo aquele descaso com mentiras inventadas pela minha própria cabeça, às vezes me acusando de errar. Mas não é errado se interessar. Não é errado responder rápido, nem nada disso. Todo esse descaso que pregam na internet, com módulos para "fazer ele se apaixonar" é uma grande piada. Onde anda o fato de se está apaixonada e não ter medo disso? Isso não é um jogo, onde temos que pensar estrategicamente como será o próximo passo. Talvez por toda essa intensidade e sonhos mirabolantes que o "eu" que continua se machucando sou eu. É difícil está de madrugada, onde tudo parece silencioso demais, e pensar em como ele deve dormir tranquilo, enquanto a cama parece muito desconfortável para mim, quando os pensamentos são tão confusos que é necessário uma ducha fria para desembaralha-los. Então eu fico andando no quarto pequeno e pensando no que estou fazendo comigo. Existe uma hora que finalmente consigo dormir, e finalmente quando acordo determinada a te esquecer, a agir finalmente como unicamente e simplesmente sua amiga, pego o meu celular e tem uma mensagem engraçadinha sua e tudo em mim se desfaz.
Continuo dizendo para mim todos os dias para não ser tola, para me amar antes de tudo isso. Talvez só não tivesse compreendido como tudo isso seria difícil. O problema maior é que continuo me botando de escanteio, como aquela bola que o zagueiro tem que empurrar para a linha de fundo para que ela nunca chegue no gol. Parece que de uma forma ou outra estou errada. E sei que isso tudo é conversa de uma cabeça que precisa enxergar novas alternativas além de se achar insuficiente. Não tem problema no meu jeito atrapalhado ou zangado, ou a minha aparência, pois sou bonita por ser eu, e estou cansada de me pôr para baixo por causa de terceiros. Sinceramente, quero sim que alguém me ame, mas que todo esse sentimento seja verdadeiro, que tenha empatia pelo o que sinto e trate isso como uma relação e não um jogo.


Nota: Fazia tempo que eu não fazia um texto e acho que quase me esqueci da sensação libertadora que é escrever. Esse texto diz muito sobre o que acho dos relacionamentos atuais, principalmente com essa onda de redes sociais e como as pessoas parecem sempre está querendo se mostrar indiferente sobre algo ou alguém. Não tenham medo do seus sentimentos e não se doem para aqueles que aparentemente não lhe dão valor. Recomendo também um texto maravilhoso que li hoje, que é: Mesmo doendo, chega uma hora que é preciso passar um trico na porta, que também fala sobre como devemos nos amar.