Fui embora. Fiz as malas e parti. Escrevi uma carta. Peguei as passagens. Parti. Procurando miseravelmente um novo caminho. Estava lutando com todas as minhas forças para não ficar. Eu tinha tomado minha decisão. Esse era o nosso fim.
Infelizmente eu ainda te amo. Fiquei até a última gota de esperança, pois você me faz sorrir como nenhum outro e gosto do sabor da sua boca na minha. Mas tudo se tornou cômodo demais, com você chegando tarde do plantão e eu escrevendo meus textos para o jornal com uma caneca de café com leite do lado, você beijava minha cabeça, não dizia nada pois sabe que eu me desconcentro muito fácil, voltava com um suéter desfiado e deitava no meu colo, brincando com as pontas do meu cabelo. Agora sentada nessa poltrona, ouvindo o ronco aleio, apenas sinto sua falta e percebo mais ainda o quanto sou apenas uma tola apaixonada. Acabei de dizer que esse era o nosso fim e já estou aqui chorando querendo você pertinho de mim,
O problema é que a gente praticamente não conversava, não dizia eu te amo olhando no olho do outro, falávamos do que estava faltando no armário e do trabalho. Eu bem que tentei conversar, falar do que estava errado e você sorria daquele jeito moleque e me puxava, beijando-me e tudo era perfeito no colar das nossas bocas. Porém, os problemas não se apagam se não mexermos neles. Estávamos escondendo nossas doeres, e desse jeito elas nunca iriam cicatrizar.
São 10 anos, não 10 anos de casados ou namoro, são 10 anos se amando, como colegas, amigos, melhores amigos, pois eu sempre fui meio paranoica e não me jogo em nada, você me queria e eu disse que não era assim, tínhamos que ser amigos e você amigo dos meus e eu dos seus. Eu tinha razão. Foi bom não atropelar tudo, foi bom descobrir os defeitos do outro e se irritar, foi bom você valorizar mais minha inteligência do que meu corpo, foi bom eu descobrir que você fumava de vez em quando para poder te xingar, dizer que assim nunca seriamos nada. Bem, você largou o cigarro de vez e passou a tomar três xícaras de café comigo. Foi bom você ter me beijado quando estávamos a mais de 2 anos sendo amigos, sinceramente, eu não tomaria iniciativa e estaríamos na amizade até agora.
Aprendi tudo com a nossa pequena bolha que chamamos de nós.
O avião já está no ar. Meu peito doí. Há tantas perguntas na minha mente, no fim não consigo responder nenhuma. Acabo que me preocupo só com você. E se o que eu fiz foi uma bobagem? A última vez que você chegou em casa e eu não estava escrevendo meu artigo para o jornal, estava jogada no banheiro depois de uma convulsão. Ainda me lembro do seu desespero e olha que a sua formação é medicina. Sempre acabamos meio desesperados quando pensamos que vamos perder alguém que amamos.
Será que essa é a hora do desespero? Meu e seu? Pois apesar de ter arrumado as malas, a minha garganta dói e eu choro nesse meio de gente desconhecida. O nosso primeiro eu te amo, quando eu tinha 18 e você 20, é valido até agora?
Como eu disse no começo disso tudo, escrevi uma carta, ela está encima da cama. No fim dela, tem rua, casa, bairro e até cep, é para onde eu estou indo. O nosso fim ou recomeço está em suas mãos agora.



                                                                        


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